O mundo está repleto de desigualdades e de injustiças, é um facto. Desde cedo que ouvimos frases como “O mundo é mesmo assim, não há nada que possamos fazer para mudar isso” e até mesmo “Nunca será possível alcançar a igualdade para todos, é impossível”. E é assim que a nossa sociedade opta pelo conformismo, muitas vezes sem se aperceber ou até sem saber que pode fazer uma escolha diferente. Mas será que aceitar uma realidade que nos incomoda é a única opção que temos?
Efetivamente, o desequilíbrio sentido no século XXI, tanto a nível económico como social, é de tal maneira significativo que se verifica em qualquer lugar do planeta. Deste modo, torna-se difícil não nos apercebermos do mesmo. O problema do ser humano da atualidade não é, de todo, falta de consciência, mas sim falta de ação. Por um lado, aqueles que sentem as verdadeiras dificuldades na pele queixam-se da vida que levam e do azar que tiveram. Por outro lado, os que vêem a situação de fora lamentam, demonstrando compaixão, e, por vezes, revelam-se frustrados ou até mesmo furiosos. Contudo, a maioria fica-se pelas palavras.
É tudo muito bonito de dizer e de sentir, mas fazer é o que custa. Seja por vergonha de dar a cara, por achar que o que quer que faça será inútil, por estar demasiado ocupado com o trabalho, por ter medo das eventuais consequências, entre muitos outros motivos que passam pelas pessoas que refletem sobre este tema. É assim que surge algo que me transtorna e me ocupa a cabeça grande parte do tempo, a que chamo “A crise do conformismo no século XXI”. Mas serão estes argumentos verdadeiros ou não passam de desculpas? O planeta Terra é assim tão longínquo da nossa essência que não nos permite abrir a alma e fazer a diferença? Não me parece.
Aquilo em que acreditamos é o que constrói a nossa identidade e reflete-se no nosso modo de agir no quotidiano. Assim, a essência de cada indivíduo é como a sua impressão digital, isto é, nunca é exatamente igual a nenhuma outra. Porém, há semelhanças entre todas as pessoas. Não me refiro apenas à fisionomia do corpo humano mas também a algumas características psicológicas entre as quais a sensação de conforto no habitual que, muitas vezes, é confundida ou até convertida
em preguiça. Até aqui parece tudo evidente mas o que nem sempre somos capazes de reconhecer é que às desigualdades no mundo atual junta-se a tendência do Homem de deixar para depois ou para os outros. E é assim que remetemos a nossa vida a um estado de estagnação cada vez mais profundo e, consequentemente, mais complicado de combater. Resta a questão: O que fazer para contrariar tudo isto, uma vez que nos sai tão natural e inconscientemente?
De facto, não tenho nenhuma ideia revolucionária nem uma solução mágica mas acredito que a reflexão é o caminho a percorrer para chegar à mudança. Cabe a cada um de nós ter consciência do que nos rodeia, da gravidade e seriedade dos problemas económicos e sociais que a nossa sociedade enfrenta e do papel que podemos ter enquanto agentes de alteração. Deste modo, sublinho a importância de valores como a tolerância e a vontade de dar uma oportunidade até nas mais pequenas e, aparentemente, irrelevantes situações do dia a dia.
Talvez seja mais claro através de um exemplo: ao passar por um sem abrigo na rua é preferível dar uma moedinha, qualquer coisa para comer ou até simplesmente dizer “Bom dia/tarde/noite! Não tenho nada comigo mas desejo-lhe muita sorte!” ao invés de passar reto sem sequer olhar. Nestas situações é comum ouvirmos expressões que parecem vir já predefinidas no cérebro humano como “Ah eles só querem o dinheiro para drogas…” ou “Eles que tivessem estudado/ trabalhado para não estar naquela posição”. Não digo que seja mentira em muitos dos casos mas parece-me cruel fazer esta generalização. É verdade que nunca poderemos saber o verdadeiro motivo ou a história completa por detrás, mas será que é uma moeda (provavelmente perdida no fundo do bolso das calças) que nos faz tanta diferença para nos levar a nem sequer dar o benefício da dúvida?
Pelo contrário, quando estamos na praia e passa um rapazinho por volta dos 8/10 anos a vender snacks (ou qualquer outra coisa) o nosso coração parece ficar “apertado” e aquela imagem incomodativa permanece na nossa cabeça durante algum tempo. Perceber que há crianças que são sujeitas a passar os seus dias a torrar ao sol e a serem ignoradas pela maior parte das pessoas que abordam só para poderem ganhar uns míseros tostões que garantirão o pão suficiente para a família sobreviver ao dia seguinte em vez de jogarem à bola ou brincarem é irrefutavelmente revoltante.
Contudo, continua sempre tudo na mesma. Porque deixamos passar, porque aceitamos que esta é uma realidade permanente, porque acreditamos que a mudança não está ao nosso alcance… Será que não está? Não temos, cada um de nós, uma boca para falar e duas mãos para escrever? Temos sim. E a palavra é a nossa maior força e também a ferramenta mais eficaz para fazer a diferença.
Em suma, o universo em que vivemos é marcado pela frustração de uns e a ignorância ou a falta de consciência de outros relativamente ao desequilíbrio económico e social sentido por todos os que a ele pertencem. Surge, assim, o
conformismo dos cidadãos que provoca o estado de estagnação que enfrentamos há décadas consecutivas, isto é, a falta de evolução necessária a nível mundial. Sabendo que cada um de nós tem o dever e a obrigação de lutar contra esta triste realidade, deixo a seguinte questão: O que podemos fazer para garantir que a nossa descendência não viverá esta tristeza? Conto com a imaginação de todos para que marquemos a história da humanidade.