Magnífica humanidade

Leão XIV aponta com precisão cirúrgica o risco de uma inteligência adormecida, que se instala algures entre o comodismo e a dependência tecnológica.

Há dois anos o Papa Francisco convidava-nos a redescobrir a literatura como um laboratório capaz de abrir novos espaços interiores, evitando o encerramento naquelas poucas ideias obsessivas que nos enredam inexoravelmente. A recente encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, eleva essa mesma urgência a um novo patamar. O documento, focado na salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, oferece uma visão de um humanismo fecundo que ultrapassa as fronteiras da fé. Trata-se de um manifesto universal sobre o que significa, afinal, cultivar a nossa interioridade e resgatar a nossa unidade num mundo colonizado por ecrãs e dados quantificáveis.

Leão XIV não assume uma postura tecnofóbica. Pelo contrário, reconhece que as novas tecnologias abrem horizontes alargados. Todavia, o Papa detém-se perante o maior risco da nossa geração: a perda da identidade e a desumanização silenciosa que se instala quando trocamos o esforço do pensamento crítico pelas respostas fáceis da máquina.

Neste cenário de saturação digital, a leitura atenta e o cultivo do espírito funcionam como um ato de resistência pacífica. O documento alerta-nos com firmeza contra a chamada «síndrome de Babel», que define como a idolatria do lucro que sacrifica os mais fracos, a uniformidade que anula as diferenças e a pretensão de uma linguagem única - mesmo digital - dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos. Inclusive o mistério essencial da pessoa.

Contra esta tentação de reduzir a vida a meras estatísticas de eficácia, a grande literatura e a reflexão humanista agem como o antídoto perfeito. Francisco já denunciava a obsessão dos ecrãs e das venenosas, superficiais e violentas fake news, lembrando que, ao contrário dos meios audiovisuais, onde o tempo para interpretar a narrativa é reduzido, o leitor de um livro é muito mais ativo. De certo modo, reescreve-o e amplia-o com a sua imaginação.

Leão XIV subscreve esta visão e aponta com precisão cirúrgica o risco de uma inteligência - de intelligere: compreender, discernir, ligar por dentro - adormecida, que se instala algures entre o comodismo e a dependência tecnológica, quando passamos a ser utilizadores passivos de agentes virtuais que simulam uma empatia que não possuem. Recorda-nos que a rapidez e a simplicidade com que hoje obtemos orientações simplificam as nossas vidas, mas também nos habituam a delegar em demasia e a procurar respostas prontas, enfraquecendo a nossa própria opinião e a criatividade. É o entorpecimento do espírito que Luís de Camões, na sua genialidade intemporal, já identificava naqueles que se deixam vencer pelo «ócio ignavo» e por um «saber só de experiências feito», apartados do verdadeiro cultivo da mente e da audácia de pensar. Quando o cérebro abdica de criar, a humanidade amortece. Quando a mente abdica de criar, a humanidade amortece.

As inteligências artificiais, sublinha a nova Encíclica, operam por adaptação estatística e cálculo, mas não vivem uma experiência, não passam pela alegria e pela dor, e não amadurecem nas relações. O ser humano, por sua vez, é um ser narrativo - como, aliás, mostrou Paul Ricoeur. Tornamo-nos sábios ao ler as dores e os triunfos uns dos outros, ao construir a nossa identidade através das histórias e ao aceitar as nossas próprias imperfeições, em vez de perseguirmos a quimera de uma eficiência mecânica. Cuidar do outro é uma dimensão existencial que nenhuma linha de código consegue replicar.

Frente ao avanço de correntes transumanistas, que olham para a fragilidade biológica como um erro a ser corrigido pela otimização dos dados, a Magnifica Humanitas surge como um elogio à nossa vulnerabilidade partilhada (pp. 6, 43). O Papa deixa-nos um apelo que ecoa como um mandato para o nosso quotidiano: o de que, nesta era tecnológica em que a dignidade corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos um dever urgente: o de salvaguardar com amor essa magnífica humanidade.

Todos precisamos desta integridade lavada e nova que nos resgata. Ler e cultivar a palavra viva é o ato integrador que une a nossa inteligência às emoções, costura as nossas fraturas e acolhe a totalidade daquilo que somos, salvaguardando a nossa interioridade da fragmentação e da neutralidade fria dos ecrãs. Num tempo em que as máquinas simulam ler e escrever, a nossa leitura atenta expande a liberdade comum. Mergulhar nesta Encíclica inspiradora constitui um convite imperativo a desligar as notificações, abrir o livro e resgatar o direito à nossa própria condição.

Professora Auxiliar com Agregação Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas | Universidade de Aveiro