A grande Estratégia de Segurança e Defesa da República Islâmica do Irão foi construída na sequência da revolução islâmica e consolidada com a guerra, que opôs este país ao Iraque, entre 1980 e 1988. Teve inicialmente o nome de Defesa Sagrada, por centrar o centro de gravidade estratégico na manutenção e defesa do regime clerical xiita. Mais tarde foi complementada pelo conceito de Defesa Avançada, que mantinha o centro de gravidade estratégico na defesa do regime, mas assumia que a melhor maneira de a guerra não chegar a território iraniano era constituir uma rede de proxies, que conduziam a defesa avançada a uma distância estratégica do território iraniano. Este dispositivo esteve (e ainda está) centrado, essencialmente, no Hezbollah no Líbano (com ação na Síria, na defesa do regime de Assad), nas milícias xiitas do Iraque, nos Houthis no Iémen e, mais tarde, no Hamas na Faixa de Gaza. A esta grande Estratégia, como conceito, correspondia um modelo de ação estratégica de natureza assimétrica, que visava essencialmente a possibilidade dum conflito com os Estados Unidos, com o apoio de Israel e, eventualmente, de algumas monarquias do Golfo Pérsico.
Mas a guerra em território iraniano acabou mesmo por acontecer, com os ataques aéreos de 2025 e 2026. E a estratégia assimétrica acabou por funcionar, através de diversos vetores de ação estratégica, seja a escalada horizontal com o ataque a países do golfo, seja pela utilização de exames de drones e mísseis que dizimaram a capacidade antiaérea de defesa convencional dos EUA e seus aliados, seja pela manobra de comunicação estratégica que funcionou, externa e internamente.
Mas houve uma situação, que sob o ponto de vista dos Estados Unidos e Israel pareceu positiva, que foi a decapitação do regime a diversos níveis. Mas essa alteração da liderança do regime trouxe uma alteração à estratégia de segurança do Irão. E foi uma mudança significativa que teve a ver com a mudança do centro de gravidade estratégico da ideologia xiita e clerical, para uma perspetiva da defesa do Estado, como ente político e administrativo. As novas lideranças não são do tempo da revolução islâmica e religiosa de 1978 e anos seguintes. São do tempo em que o Estado iraniano, enquanto entidade administrativa e política, é necessário à manutenção de regime e assumem uma perspetiva mais pragmática que religiosa. E separaram religião e Estado. E quem conduziu esta guerra foi esta geração e a sua estratégia funcionou. Passou das condições estratégicas da guerra de junho de 2025, em que teve de combater com as regras tecnológicas e operacionais de Israel, para a guerra de 2026 onde impôs aos seus adversários as regras operacionais e estratégicas da sua abordagem assimétrica, adaptada à sua realidade geopolítica e geoestratégica.
Mas que impacto está a ter esta alteração de situação na realidade estratégica da guerra em curso? O principal poderá ser uma mudança da imagem que o regime tem perante a sua população. Um sentido de Estado, mais político que religioso, pode amenizar tensões que estavam muito acesas entre as lideranças religiosas e os grupos oposicionistas e a generalidade da população. Este aparente regresso ao nacionalismo não será com certeza suficiente para uma alteração do regime que, eventualmente, irá tornar-se mais autocrático, sob o ponto de vista político. Mas este movimento, mais nacionalista, não significa um abandono dos seus proxies ideológicos. A própria população do Irão, que via estes proxies como excrescências ideológicas, vê-os hoje como um instrumento de defesa. Nada disto torna mais benigno o regime de Teerão. Antes pelo contrário, um regime mais pragmático pode ser mais perigoso. E irá perseguir, sem migalha ética ou moral religiosa, a posse de armas nucleares. E, uma eventual vitória estratégica, assente numa aparente paridade de potencial estratégico com Israel, será um perigo para o futuro da segurança regional do Médio Oriente pós conflito.