Vou escrevendo, recorrentemente, sobre a necessidade dum Conceito Estratégico Nacional (CEN) para Portugal, conceito esse que não deverá ser confundido com o Conceito Estratégico de Defesa Nacional (CEDN). Enquanto a este último estão associadas questões da Segurança e Defesa, o primeiro equaciona o que Portugal quer ter como destino e como lá chegar, num ambiente revolto e imprevisível.
Atualmente, já ninguém duvida que os riscos e ameaças ao mundo em que vivemos e ao seu (nosso) sistema político, económico e de segurança, onde nos inserimos, está em risco de rotura ou séria reconfiguração. Não conseguimos perceber como será a União Europeia, ou a Aliança Atlântica, no curto/médio prazo, mas, começamos a perceber que o risco de nada ser como dantes, é cada vez maior. Mesmo que, na melhor das hipóteses, o sistema resista com alterações e sobressaltos, o risco de desaparecimento dos modelos de funcionamento político, social, económico e de segurança, onde vivemos nas últimas dezenas de anos, não é descartável.
Diz-nos o bom senso que devemos estar preparados para fazer face a essas realidades, num mundo em rápida mudança. Dito de outra maneira, precisamos de uma boa Estratégia para caminharmos na direção que queremos, no sentido de salvaguardar os nossos interesses nacionais e o valores e princípios a eles agregados. No fim do dia trata-se de salvaguardar a Segurança, a Prosperidade e o Bem-estar de Portugal e dos portugueses. Podemos fazer isso com o os nossos amigos e aliados? Podemos, mas temos de fazer o nosso trabalho de casa prévio, para estarmos preparados para a discussão sobre o nosso futuro coletivo, de modo a fazer valer os nossos interesses e visões, sobre esse futuro.
A Grande Estratégia é o principal instrumento para a prossecução dos interesses nacionais definidos pela Alta Política, em contextos de oposição por Ameaças e Riscos vários, internos, mas, principalmente, externos. A Estratégia é estudo, planeamento e ação e visa identificar os meios necessários (e gerá-los se não existirem), articulá-los e pô-los em ação, para apoiarem a ação política do Estado, em ambiente de atrição e oposição de outros atores políticos (competidores ou opositores).
O Professor Adriano Moreira, já desaparecido, foi um dos grandes pensadores e promotores da necessidade de produzirmos um CEN, como elemento essencial para o sucesso da nossa vida coletiva como portugueses. Nestas curtas linhas não será possível elaborar em profundidade o que fazer e o como fazer.
O que aqui cabe, é o alerta para nos debruçarmos de forma urgente sobre esta necessidade, fruto das realidades geopolíticas, geoeconómicas e geoestratégicas atuais, que nos trazem preocupações de monta para o nosso futuro e destino coletivo. E temos de ser nós, como povo português, a fazê-lo, pois ninguém fará isso por nós, ou, se o fizerem, não será com certeza para acautelar os nossos interesses nacionais. E temos desafios de monta no nosso presente como a crise da Aliança Atlântica, a nossa garantia de segurança e defesa, e a crise da própria União Europeia, um dos vetores fundamentais da nossa prosperidade e bem-estar. Há, portanto, um risco de nos vermos sozinhos, sem rede. Temos de buscar e construir alternativas, dentro do velho princípio de não pormos os ovos todos no mesmo cesto.
O nosso futuro, como Estado nação soberano, desenvolvido e relevante, poderá ser colocado em causa se não acautelarmos as soluções para os problemas sérios que se nos colocam no tempo presente. O tempo de começar é já.
Tenente-general (R)