terça-feira, 21 jul. 2026

Notas sobre o fim possível da Guerra na Ucrânia

Guerras de grande atrição tendem a provocar exaustão das partes, com degradação económica, moral e militar dos oponentes e onde, muitas vezes, quem tem mais resiliência e capacidade de regenerar recursos, vence. 

A forma de terminar um conflito armado é uma temática da Teoria Geral da Guerra e dos estudos de Estratégia, mas que é frequentemente pouco analisada. Muitas vezes ouvimos dizer, quando se discutem opções de cessar-fogo ou de processos de paz, que a diplomacia não está a funcionar. A diplomacia é um instrumento da negociação política internacional, normalmente entre Estados, que permite atingir acordos de diversa natureza. Mas é isso, um instrumento que só tem sentido para se atingirem e conciliarem objetivos políticos das diversas partes. Exige vontade política de ambos os lados, no quadro da perseguição dos interesses fundamentais dos Estados. E a Guerra é um fenómeno de luta por interesses e objetivos políticos e estratégicos, muitas das vezes completamente inconciliáveis, onde a diplomacia tem muito pouco espaço. 

No caso da Guerra da Ucrânia os objetivos políticos das partes são completamente antagónicos: a Rússia pretende capturar o máximo de território ucraniano e quebrar-lhe a liberdade política e a soberania; a Ucrânia quer parar a ofensiva russa, manter a soberania e autonomia política e recuperar territórios perdidos. Para isso ambos os países utilizam instrumentos de ação estratégica, de que a força militar é o mais determinante, mas não o único.

Clausewitz, um dos grandes teóricos da Guerra, escreveu que o seu fim último é a destruição do inimigo ou da sua vontade de combater. A destruição, ou melhor, a capitulação das forças armadas do adversário nem sempre acontece, e não é fácil de conseguir. Já a quebra da moral e da vontade de combater de um oponente tem sido mais fácil. E temos exemplos em que forças militares mais poderosas foram derrotadas, casos do Afeganistão e do Vietname, entre muitos outros, numa mistura de falta de vontade e alteração dos objetivos iniciais da guerra. 

Guerras de grande atrição tendem a provocar exaustão das partes, com degradação económica, moral e militar dos oponentes e onde, muitas vezes, quem tem mais resiliência e capacidade de regenerar recursos, vence. Mas nem todas as guerras acabam com um resultado decisivo, sendo que muitas vezes os oponentes concluem que, não conseguindo atingir os seus objetivos políticos e estratégicos, preferem encetar processos negociais. Mas para isso acontecer é necessário que ambos aceitem que continuar a guerra traz mais prejuízos que ganhos no médio/longo prazo. É neste ponto que parecemos estar na guerra da Ucrânia, embora a Rússia esteja com dificuldade de aceitar esta realidade, em que sob o ponto de vista militar não irá conseguir um resultado decisivo, em tempo útil. Os objetivos políticos dos dois oponentes são completamente inalcançáveis no médio prazo: nem a Rússia anula a Ucrânia como estado soberano, nem a Ucrânia conseguirá, no decurso desta guerra, recuperar todos os territórios, incluindo a Crimeia. Opõe-se a esta opção a dificuldade de percecionar o estado moral do adversário, havendo sempre a esperança que o oponente colapse, entretanto. Pura miragem neste caso, parece-nos.

Aqui entra a diplomacia e a mediação, sendo conveniente que, numa situação desta natureza, haja um cessar-fogo prévio para continuar as negociações políticas. Mas também pode haver negociações e a guerra continuar, no sentido de se conseguirem condições para que algum dos lados tenhas vantagens negociais importantes, para um futuro acordo de paz. Tem sido esta a posição da Rússia. Mas pode haver um cessar-fogo e não se conseguir um acordo de Paz, do que resulta o dito ‘conflito congelado’. Não é a melhor solução, mas é muitas vezes única para se obter uma paz prolongada imediata. Mais uma vez parece ser a melhor (única?) opção para esta guerra. Mas é preciso que a Rússia queira, pois, a Ucrânia já parece disposta a isso. Putin terá de valorizar mais a Paz. O mundo agradece e os russos também.

Tenente-general (R)