É hoje cada vez mais claro que ambos os contendores, Ucrânia e Federação Russa, começam a tomar consciência que as condições para atingirem os seus objetivos maximalistas para esta guerra, de invasão pela Rússia, não estão em condições de ser atingidas. A guerra de atrição dos últimos anos está a provocar uma exaustão nos recursos disponíveis (humanos, materiais e financeiros) de ambas as partes, que não antecipam a possibilidade de que algum dos lados venha a infligir ao outro uma derrota militar clara. Assim sendo, um processo de negociação justo precisa de ser iniciado. Convém, neste contexto, recordar os objetivos políticos e estratégicos das partes.
Os objetivos políticos dos dois oponentes, completamente inalcançáveis no tempo presente, são para Rússia anular a Ucrânia como estado soberano e, para a Ucrânia, conseguir, no decurso desta guerra, recuperar todos os territórios ocupados, incluindo a Crimeia. Não há recursos e capacidades militares de qualquer dos lados para se atingirem estes objetivos, num futuro próximo. E a Ucrânia já tem vindo a sinalizar, de forma transparente, a necessidade de se iniciar um processo negocial sério e credível, mas a Rússia tem vindo a insistir na resolução do conflito pela via militar. Aqui tem residido a dificuldade de Putin aceitar um cessar-fogo e iniciar-se o processo negocial.
A atual estratégia operacional da Ucrânia, de atacar de forma robusta e precisa alvos estratégicos no interior da Rússia, nomeadamente as infraestruturas ligadas ao petróleo, à logística militar e à indústria de defesa, tem obtidos sucessos importantes, com sérios impactos na economia de guerra russa e na sua capacidade operacional na linha da frente. A isto associa-se uma intenção clara da Ucrânia de isolar a Crimeia, cortando as vias terrestres com a Rússia, quebrando todo o apoio logístico às forças militares que ocupam a Crimeia e que operam no Oblast de Kherson, com sérios riscos de claudicarem militarmente, se a ponte de Kersh vier a ser completamente interditada. A tudo isto alia-se o sentimento de insegurança que se transmitiu à população russa de Moscovo e São Petersburgo, que tinha vivido longe desta guerra, assim como o incomodo da falta de combustíveis, nas bombas da federação russa.
É assim fundamental que, nesta cimeira da OTAN, continue e seja melhorado o fornecimento de material militar a Ucrânia, acordado na cimeira de Haia de 2025, no sentido de continuar a garantir, por um lado, uma relativa estabilidade na linha da frente e, por outro, lhe permita continuar este modelo de ação estratégica, que indicia ser o único que venha a obrigar Vladimir Putin a sentar-se, rapidamente, à mesa das negociações, em condições mais favoráveis para a Ucrânia que, não esqueçamos, foi a agredida. E convém continuar com o processo de sanções, que vão pressionando a economia russa já muito debilitada, no sentido de ‘obrigar’ Putin a pôr um fim à guerra. Não é difícil entender-se que só a perceção, por Putin, de que o futuro virá a ser pior que o presente, o levará a entrar num processo negocial, onde a Ucrânia veja garantida condições de justiça mínima, como entidade agredida. Era importante que o Presidente dos EUA, Donald Trump, percebesse que, só pondo pressão em Putin, conseguirá parar a guerra e ter uma solução, mesmo que temporária, mas que pare a matança de ambos os lados. Perceber já terá percebido, vamos ver é se terá coragem política e vontade de afrontar Putin. Até porque, já terá também percebido que a Ucrânia já não é o elo mais fraco neste conflito. Nós, os europeus, já percebemos isso. É necessária mais pressão imediata sobre Putin pois, só isso, conduzirá a negociações e a um cessar-fogo de forma mais imediata e, eventualmente, à paz no futuro.