O novo acordo de Meca, que juntou a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia num mecanismo solidário de Defesa, sem inimigos declarados, mas com contornos de defesa coletiva, impõe uma alteração estratégica na abordagem à segurança regional. E é provável que este grupo se estenda a outras monarquias do golfo e mesmo ao próprio Egipto. Os três fundadores têm conceitos de ameaça diferenciados na região, com a Turquia com um olho em Israel e outro no Irão, com a Arabia Saudita com todos os olhos no Irão, mas também nos Houthis do Iémen e nas milícias xiitas do Iraque, e o Paquistão a criar musculo para a India, esta última, até agora, fora do contexto da segurança do Médio Oriente. Mas a India não estará completamente de fora, pois tem alinhamentos estratégicos, mais ou menos formais e recentes com Israel, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e os EUA (I2U2). E temos uma parceria estratégica entre o Irão e o Qatar.
Muitos destes atuais mini alinhamentos resultam de relações bilaterais fortes, que se estenderam a países terceiros da região ou das suas periferias.
Tudo isto com a conclusão, óbvia, de que os Estados Unidos (EUA) deixaram de ser a primeira resposta, efetiva e poderosa, na segurança do Médio Oriente, fruto duma mistura de incapacidade e falta de vontade estratégicas para o serem. Vamos ver se o continuarão a ser com Israel, tendo em consideração a apologia duma autonomia estratégica do Estado Judaico, com novas parcerias (I2U2 mais Grécia e Chipre).
Vemos uma expansão do espaço estratégico de segurança para fora do golfo pérsico, incluindo o subcontinente indiano e estendendo-se ao mar vermelho e ao mediterrâneo oriental. Esta articulação irá colocar os EUA como uma segunda resposta a ameaças regionais, em socorro dos seus aliados principais. Eles que sempre foram a primeira resposta e a potência única, mesmo pertencendo a outra geografia. É isto a superpotência. Este salto, dos EUA, para um outro nível de resposta, irá obrigar a China e outras potencias regionais, como a Rússia (e porque não a Europa, no futuro) a um maior envolvimento estratégico para equilibrar a ação americana, ou mesmo compensar as suas falhas, pois a insegurança estratégica do golfo estender-se-á rapidamente às suas periferias, nomeadamente ao Índico e ao Mediterrâneo. Por isso, a Europa não poderá ficar de fora. O que aliás nunca esteve, mas sempre sob a orientação do parceiro americano. Terá de ter maior autonomia para ter uma palavra a dizer.
Não era novidade, para quem se interessa por estas temáticas, que a diminuição do poder americano iria provocar estas novas configurações de segurança, com múltiplos alinhamentos e a obrigação de outros atores saírem da toca e terem de vir a terreiro defender os seus interesses, de forma mais direta. O que aliás também está a acontecer no espaço euro-atlântico.
A grande dúvida reside no posicionamento futuro dos EUA e como vão gerir esta saída de cena, como primeira resposta de segurança, ou se irão, em determinadas condições, continuar a assegurar a primazia estratégica na região. Mas para isso é necessário poder e vontade estratégica.
Todo este novo figurino, que se esta a desenhar, irá estar condicionado ao resultado estratégico da intervenção militar americana na região. Mas a possibilidade duma retumbante vitória estratégica dos EUA está cada vez mais longe, e isso terá um forte impacto no seu posicionamento estratégico futuro na região, e não só. A falta da superpotência e os múltiplos e, por vezes, contraditórios alinhamentos estratégicos locais e regionais, dificilmente trarão mais estabilidade estratégica e geopolítica, ao grande Médio Oriente e ao Indico. São os novos tempos a que teremos de nos habituar. Teremos de acompanhar também a nuclearização da segurança da região, e a sua evolução, com a inclusão da India e do Paquistão, nestes mecanismos de segurança.