Na sequência do artigo da edição de 15 de maio passado, voltamos à análise de algumas observações que esta guerra, EUA/Israel vs Irão, nos permite fazer. E, uma das questões que mais uma vez se coloca, é a da mudança forçada de regime, depois de décadas de tentativas falhadas, desde o Iraque ao Afeganistão e Líbia, entre outros casos. A decapitação de regime, por via de ação militar, muito poucas vezes tem conduzido a uma submissão política do Estado atacado ao Estado/Coligação atacante. Em vez disso, muitas vezes, reforça a coesão e legitimidade do regime, desencadeando uma reação nacionalista. As expectativas de que grupos de oposição, com maior ou menor expressão como as populações curdas no Irão, se mobilizassem contra o regime, também se revelaram infundadas. Só estratégias indiretas, de pressão económica e política sobre regimes autocráticos, e apoio adequado a grupos oposicionistas robustos, podem levar a eventuais sublevações internas e colapso de regimes. E nunca serão ações de rápido sucesso.
Outra observação, curiosa, é que a perspetiva de não se conseguir uma vitória militar concludente, muda o foco das ações militares para a batalha das narrativas e das perceções. Os líderes verbalizam, cada vez mais, os resultados percebidos das operações, para as audiências domésticas e externas, transformando a ambiguidade estratégica em narrativas políticas de vitória antecipada. A não existência dum claro objetivo político, para o fim da guerra, dificulta a gestão política e estratégica do conflito, tornando a escalada como meio de gestão operacional e retórico, com os riscos inerentes que esta opção acarreta.
O conflito reflete uma redistribuição mais alargada do poder em que, nenhum ator isolado, consegue impor resultados decisivos unilateralmente. A supremacia militar já não é decisiva por si só. Como muitos analistas sugerem, isto sinaliza uma mudança para uma ordem mais negociada e multipolar, onde até as potências dominantes tem de confiar nos rivais, para gerir crises que já não conseguem controlar sozinhas. Vide, neste conflito, o caso dos EUA e da China.
Apesar de repetidos fracassos, as doutrinas intervencionistas perduram. O intervencionismo está profundamente enraizado no paradigma da segurança nacional dos EUA (não são os únicos), sustentado por regras partilhadas e incentivos institucionais, em vez de escolhas políticas isoladas, que foram verbalizadas por Donald Trump, mas que não conseguiu implementá-las. Isto reflete a persistência da ‘hegemonia liberal’, uma estratégia destinada a contornar as ordens políticas rivais externas, mas que também revela, não só a inércia institucional, mas também um compromisso ideológico, mais profundo, com o intuito de moldar resultados políticos no Sistema Internacional.
Mas, o que é que podemos aprender com esta guerra, como lição para o futuro. Historicamente, a guerra tem servido como um laboratório de aprendizagem política e estratégica. No entanto, a observação que aqui emerge não é de adaptação, mas de repetição. Os mesmos padrões: perceção errada, excesso e escalada sem fins claros, repetem-se, apesar de décadas de experiência. Os decisores tendem a interpretar os novos conflitos através das estruturas cognitivas herdadas, interpretando mal as realidades em mudança, em vez de se adaptarem positivamente a elas. É necessária mais literacia Política e Estratégica das lideranças, que só o estudo e a reflexão trazem. E a humildade de querer aprender. O mesmo se aplica às lideranças operacionais.
Esta guerra ainda não acabou, estando neste momento a decorrer intensa atividade diplomática para acertar uma solução ótima, que não vai acontecer. Mas a Política é a arte do possível, mesmo que a possibilidade de acordo tenda para zero. Muito provavelmente estamos num intervalo do conflito do Médio Oriente. Novos episódios aí virão. Vamos ver se os erros vão continuar.