A dinâmica desta nova guerra no Golfo Pérsico, que se iniciou com operações aéreas combinadas entre as Forças Armadas dos EUA e de Israel contra o regime do Irão, trouxe-nos algumas novidades, algumas inclusivamente de difícil perceção ou entendimento. Outros aspetos, tais como a guerra assimétrica, entre outros, trouxe-nos confirmações operacionais e estratégicas que já conhecíamos. Este conflito expõe, não só erros políticos e estratégicos, mas uma transformação mais profunda na forma como as guerras são travadas, justificadas e prolongadas. E se a principal lição a tirar for que um poder militar superior já não garante automaticamente o sucesso? Ou que a prática da escalada agora substitui a estratégia? Questões a serem vistas no futuro com muito cuidado. Com isto não pretendo dizer que o principal objetivo político desta guerra, a questão nuclear iraniana, não seja válido e relevante para a estabilidade e segurança da região.
O confronto entre os Estados Unidos, Israel e o Irão não só reformulou os alinhamentos regionais, como também expôs transformações mais profundas na própria natureza da guerra. Muitos analistas têm enfatizado que este conflito marca uma transição dos paradigmas estratégicos utilizados pelo Ocidente para uma ordem internacional mais fragmentada e adaptativa. Na teoria clássica, a partir de Carl von Clausewitz, a guerra é vista como uma continuação da política por outros meios. No entanto, o que esta guerra sugere é mais preocupante: a guerra escapa cada vez mais ao controlo político, gerando dinâmicas que reformulam tanto a Estratégia, como o sistema internacional, de formas que os líderes nem pretendem nem parecem compreender totalmente.
Mas vejamos algumas constatações. E a primeira é a questão da assimetria na guerra, que está a redefinir as conceções de poder. Inferioridade militar percebida já não implica fraqueza estratégica. Através de redes descentralizadas, drones, mísseis, capacidades cibernéticas e perturbações marítimas, o Irão impôs custos desproporcionais. O objetivo não é a vitória no sentido convencional, mas a erosão da vontade e coerência do adversário. A guerra torna-se um confronto de resistência em vez de aniquilação. E isto, numa guerra aérea, onde a superioridade convencional sempre foi decisiva. Já estava a acontecer na Ucrânia, mas está completamente validada neste conflito.
Outra constatação é que a capacidade de dissuasão dos Estados Unidos foi nitidamente obliterada. A vulnerabilidade das bases militares, navios e cadeias de abastecimento, minou a imagem dum domínio americano incontestável. A dissuasão depende agora menos da superioridade tecnológica e mais da resiliência sob uma pressão sustentada. Isto está em linha as com análises da RAND Corporation, que destacam a crescente vulnerabilidade de capacidades militares de alto valor em ambientes de grande atrição. Falta de atenção, igualmente, das elites militares e estratégicas ocidentais ao que se está a passar na Ucrânia, relativamente à Rússia.
Outro aspeto, interessante, é que a Geoeconomia veio a tornar-se o campo de batalha privilegiado. A perturbação no Estreito de Ormuz demonstra como os fluxos económicos se constituem como armas de precisão. O petróleo, as rotas de navegação e os sistemas financeiros, são agora parte central do conflito. A crescente fragmentação e a competição geopolítica estão a transformar a interdependência económica, particularmente em pontos estratégicos de estrangulamento e fluxos de energia, num domínio de conflito, em vez de estabilidade. Este é também um elemento central da estratégia assimétrica do Irão.
Voltaremos a mais observações a curto prazo, porque há outros aspetos de natureza não cinética nesta guerra, que são altamente relevantes para estratégias de sucesso em conflitos futuros.
Tenente-general (R)