terça-feira, 21 jul. 2026

A Cimeira da OTAN em Ancara: perspetivas e realidades

Os aliados dos EUA terão de preencher essas lacunas que as Forças Armadas americanas vão criar, pois para a dissuasão convencional funcionar as capacidades militares convencionais terão de existir e estar posicionadas nas áreas críticas.

O grande objetivo das cimeiras da OTAN é afinar o seu rumo estratégico, discutindo assuntos que têm a ver, entre outros, com o planeamento de Defesa e a Dissuasão, os gastos de Defesa e a repartição de custos entre os aliados.

Estamos a pouco menos de 2 semanas da Cimeira anual da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que se irá realizar na capital da Turquia, em 7 e 8 de julho próximo.

Talvez nunca se tenha falado tão pouco duma cimeira, como desta. Isto porque a Aliança Atlântica está com dificuldades variadas, mas a principal é mesmo a relação, difícil, entre os europeus e o Canadá, de um lado, e o parceiro americano, do outro. Ao contrário do seu primeiro mandato, onde algum caos predominava, este segundo mandato tem mostrado uma administração do EUA com uma agenda própria sobre a Aliança Atlântica, demonstrando muita eficácia a atingir os seus objetivos. Recordemos a questão da percentagem do PIB para a defesa, em cimeiras anteriores e agora o papel central dos europeus no garantir da capacidade convencional, para a dissuasão da Rússia.

O grande objetivo das cimeiras da OTAN é afinar o seu rumo estratégico, discutindo assuntos que têm a ver, entre outros, com o planeamento de Defesa e a Dissuasão, os gastos de Defesa e a repartição de custos entre os aliados. No caso desta cimeira a questão do apoio à Ucrânia também deverá estar presente, em especial o fornecimento de equipamentos militares, assim como os mecanismos de financiamento do esforço de defesa da Ucrânia e sua capacidade de resiliência no longo prazo.

Mas há um tema que será central nas discussões, que é o redireccionamento estratégico da Aliança, temática que o Secretário da Defesa dos EUA já anunciou na intervenção que fez recentemente na reunião de ministros da defesa da OTAN. Pete Hegseth afirmou que os EUA pretendem uma OTAN 3.0, que seja uma reformulação da OTAN 1.0, a versão inicial da Guerra Fria, mas com os aliados europeus a assumirem a liderança da defesa convencional do território europeu, ao contrário da 1.0, em que este papel era assumido pelas Forças Armadas dos Estados Unidos. A OTAN 2.0 foi a do pós-guerra fria, que a atual administração critica por ter conduzido a uma aliança com fraca capacidade militar dos aliados europeus. Logo à partida, este desiderato 3.0, terá dois impactos sérios no atual modelo de forças da Aliança: uma redução/reorganização da presença militar americana em território europeu; e uma reformulação do preenchimento dos cargos da estrutura de comando, com menos militares americanos e mais europeus e canadianos.

Nestas duas situações, os aliados dos EUA terão de preencher essas lacunas que as Forças Armadas americanas vão criar, pois para a dissuasão convencional funcionar as capacidades militares convencionais terão de existir e estar posicionadas nas áreas críticas. E a cadeia de comando integrada, que irá exercer o comando e controlo das forças multinacionais, terá de estar preenchida para poder funcionar adequadamente.

Nos cargos de comando de nível estratégico e operacional, os EUA ocupam uma grande parte deles, o que não era posto em causa por ninguém dentro da Aliança. Já quando era necessário gerir o preenchimento de cargos por Oficiais Generais europeus, a situação complicava-se, pois, a competição era maior e não era fácil gerir as diferenças idiossincráticas entre aliados europeus. Portanto não se antecipa um processo fácil para este processo de substituição de americanos por europeus. Mas vai ter de acontecer pois o Secretário da Defesa dos EUA já anunciou uma revisão da presença americana na Europa a decorrer nos próximos seis meses, que produzirá efeitos imediatos.

Não estará em causa a continuidade da existência da Aliança Atlântica, até porque a sua continuidade está dependente duma recalibração estratégica entre os aliados e a sua contribuição para o esforço de defesa coletiva. Situação que os europeus já interiorizaram. Vemos, também, do lado americano uma maior abertura para a necessidade de alianças fortes. Perspetivas boas, as realidades vamos ver.

Tenente-general (R)