quarta-feira, 13 mai. 2026

Doutoramento: Repetiria tudo outra vez

Espero voltar a errar, porque o erro, não tenho dúvidas, e a literatura tão-pouco as tem, cumpre uma função vital na aprendizagem.

Fazer um doutoramento é viver um processo de transformação particularmente profundo e individual. É um caminho de emancipação científica e intelectual, em que aprendemos a deixar de seguir cegamente a linha traçada pela equipa de orientação para começar, progressivamente, a questioná-la. E, quando o ambiente científico é saudável, isso é natural e desejável. Não porque o orientador tenha ficado desatualizado, mas porque dormimos, bebemos e comemos o tema que aceitámos trabalhar.

Enquanto doutorandos, vivemos numa procura incessante por soluções e deparamo-nos, quase invariavelmente, com resultados que nos sugerem continuar à procura. Cimentamos, então, o que vezes sem conta nos tentaram transmitir: que o método científico tem valor mesmo quando a hipótese falha. Talvez esse tenha sido um dos momentos mais transformadores do meu percurso, perceber que errar não é fracassar, é também produzir conhecimento. E aceitar que a ciência não é, na maioria das vezes, uma revolução súbita. É melhoria incremental e lenta. É insistência e iteração. Tentativa e erro. Aprendi muito enquanto errei. Errei em conjunto e individualmente, na escolha e implementação de métodos e na interpretação de resultados. E espero voltar a errar, porque o erro, não tenho dúvidas, e a literatura tão-pouco as tem, cumpre uma função vital na aprendizagem.

Concluir um doutoramento é passar por essa prova de esforço sem nunca atirar a toalha ao chão. É explorar exaustivamente um tema, para no final contribuir com algo que apenas empurra ligeiramente a fronteira desse conhecimento.

Mas ao fim de tantos (e longos) anos de estudo, levamos muito mais do que apenas saber técnico-científico. No meu caso, e não negando que a viagem de doutorando é muitas vezes feita de percursos solitários, sou hoje crente de que a ciência é uma epopeia coletiva, feita de colaborações, de aprendizagem entre pares e do apoio de muitos, tantas vezes invisíveis. Neste processo, é obrigatório, reconhecer os que tornam, diariamente, a exploração científica possível: orientadores e coautores, mas também técnicos de laboratório e funcionários, professores que motivam e, muito importante, os que servem de exemplo. Sem eles, muitos percursos ficariam pelo caminho, e o país ficaria, certamente, mais pobre.

Agora doutorado, sinto, mais que nunca, o dever de não esquecer as barreiras que tive de ultrapassar (eu e tantos outros com quem trabalhei e partilhei, ao longo dos últimos anos, desafios e sessões de filosofia académica acompanhada de cerveja e empatia). Se há vários desafios naturalmente impregnados na essência de um doutoramento, há outros, contextuais, que pesam na qualidade da formação doutoral.

Como muitos, dependi durante anos de bolsas de investigação, da sua variabilidade e inconsistência, pesando-me mais do que tudo a natureza precária do vínculo que lhes está associado. Não tendo um contrato de trabalho, um bolseiro não recebe subsídio de refeição, nem 13.º e 14.º mês, não tem o mesmo tipo de proteção social (na doença, na parentalidade ou no desemprego, por exemplo) e enfrenta, não raras vezes, períodos de interrupção forçada de rendimentos. Quase parece um mecanismo embutido no sistema para que apenas os altamente dedicados à causa cheguem ao fim. Tantas vezes testemunhei esta instabilidade adiar projetos pessoais.

Quantos cientistas brilhantes estamos a perder para a precariedade?

É imperativo repensar o regime de bolseiro. Não sou só eu a dizê-lo, várias tutelas identificaram, ao longo dos últimos anos, este problema como uma fragilidade do sistema. Uma bolsa é uma ajuda, um complemento para quem estuda. Hoje, o aluno de doutoramento não é apenas isso, é um jovem de enorme potencial a iniciar o seu percurso profissional, que escolhe abdicar de um rendimento, probabilisticamente, muito superior. O regime atual de bolsas não é a única, mas talvez a maior das razões para menos ingressos ou até desistências em doutoramentos. Pedimos à juventude promissora do nosso país que escolha viver a conta-gotas e na incerteza, ao mesmo tempo que esperamos que se equipare a ombros de gigantes. Quantos cientistas brilhantes estamos a perder para a precariedade?

Hoje sinto que talvez esta seja a principal responsabilidade de quem conclui um doutoramento: sair não apenas com um grau, mas com um compromisso intelectual. O compromisso de continuar a fazer perguntas difíceis, e de contribuir para um mundo mais informado, mais justo e mais racional. Porque o desenvolvimento científico e tecnológico é lento e incremental, mas acontece.

Quero, no entanto, deixar uma mensagem clara, de esperança e de responsabilidade. Repetia tudo outra vez.

O dia em que defendi a minha tese ficará registado como o culminar de uma das maiores e mais exigentes provas que alguma vez conseguirei completar. Mas a magnitude desse desafio trouxe consigo um sentimento de recompensa difícil de igualar. Não trocaria os altos e baixos do percurso por nada: todos fizeram parte do processo. Desfrutei, aprendi e saí transformado.

Permitam-me, em nome dos doutorados, particularmente os do Técnico, desejar que, independentemente do papel que venhamos a desempenhar, sejamos cidadãos atentos e compreensivos, agentes de progresso e de conciliação e, naturalmente, símbolos orgulhosos do rigor que nos foi ensinado.

Alumnus recém-graduado do 3.º ciclo em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

* Texto adaptado do discurso proferido no Dia da Graduação 2026, de celebração dos diplomados em mestrado e doutoramento do Técnico.