Já lá vão quase dois meses e ainda me custa acreditar. Este último Natal, tanto para a família como para os seus amigos nunca será esquecido. Pelos piores motivos. Vítor Gonçalves deixou-nos. E ainda para mais, vitima de um acidente estranho em que a sorte nada quis com ele. Como se diz vulgarmente, é estar no sitio errado à hora errada. Por aqui se vê que não são só as doenças graves, os desastres ou atos de violência que matam, pois, há sempre fatalidades que podem aparecer quando menos se espera.
Vítor Gonçalves, velha glória do Sporting foi um jogador de elite, reconhecido dessa forma por colegas e adversários que tinham por ele muita admiração e estima pessoal. Sempre correto e leal, corria por amor à camisola ao contrário do que se passa hoje em que o dinheiro está acima de tudo. Pertencia a uma ‘geração de ouro’ que servia o clube de alma e coração ‘deixando a pele no relvado’ se necessário fosse. Naquele tempo, o desporto era visto com outros olhos. Os adversários eram colegas de profissão e o respeito e a solidariedade entre eles estavam sempre presentes. Hoje, os tempos são outros e as declarações dos dirigentes, treinadores e jogadores nas televisões, jornais e redes sociais são muitas vezes o rastilho que dá origem ao clima de violência que desgraçadamente se instalou no futebol estendendo-se até aos relvados.
Como médico de família, recebi o Vítor na minha lista de utentes no Centro de Saúde da Ajuda. E depressa me conquistou apesar de não pertencermos à mesma família desportiva. Nessa área sempre nos respeitámos mutuamente, prevalecendo sempre um ‘fair play’ entre nós. Era um doente que tinha em mim uma confiança inabalável respeitando religiosamente as minhas indicações. Vi nele um homem de família excecional. Para ele, a família estava em primeiro lugar e afastava logo à partida, tudo aquilo que a pudesse perturbar. Que testemunho o seu nos dias de hoje, onde a família passa para segundo plano e por tudo e por nada se desfaz pelas influências desta sociedade decadente e sem valores. Falando como profissional de Medicina Familiar é com profunda tristeza que assisto a esta degradação da família. A vida de hoje nada tem a ver com a de antigamente, tanto no bom como no mau. Ninguém está disposto a fazer cedências, seja em que circunstância for, nem a abdicar de nada. A intransigência entre os casais veio mesmo para ficar e por isso ao mínimo desentendimento, cada um segue o seu caminho e são os filhos que acabam por colher as ‘tempestades dos ventos’ que os pais foram semeando.
Vítor Gonçalves era ainda um fervoroso adepto da prática regular do exercício físico na terceira idade sendo notório o cuidado que tinha com as suas ‘velhinhas’ como ele carinhosamente as tratava, a quem ensinava os princípios básicos da educação física naquela faixa etária. Por diversas vezes conversámos acerca desta sua atividade e sempre o encorajei a manter essa louvável iniciativa. É uma área a que nós médicos, damos especial importância e que talvez a maioria das pessoas não compreende bem. O exercício físico é essencial na saúde do ser humano, não para tirar anos de vida a quem o pratica, mas como meio complementar no tratamento das doenças próprias de envelhecimento e como forma de manter o equilíbrio físico e psíquico de cada pessoa. Também nesta área da educação para a saúde deixou bem vincada a sua marca e o seu empenho ao serviço dos outros.
O Vítor partiu. Para trás fica o seu exemplo como desportista dedicado e trabalhador. Como homem de família sobressai a imagem de alguém que sempre lutou por ela e no tocante à educação física a Historia recordá-lo-á como um técnico de valor vestindo a camisola dos mais necessitados.
Perdi, nesta terra’, um amigo e fiel, mas ganhei no céu, mais um a intercessor junto do Pai. Na nova morada que Ele agora lhe destinou, continuará a acompanhar a sua família, os seus amigos e os seus ‘alunos’ agora noutra dimensão.
Uma história? Uma vida? Uma homenagem? Pode ser tudo isso, mas, para mim, fica apenas um testemunho que guardo.
(À memória de Vítor Gonçalves)
Médico