sexta-feira, 10 jul. 2026

Solidão – Um destino a evitar 

Que ninguém se iluda: não é a sociedade que influencia o indivíduo. É o indivíduo que influencia a sociedade.

Ao longo da nossa vida há sempre viagens que fazemos das quais guardamos melhores ou piores recordações. É sempre fascinante conhecer novos mundos, novas civilizações, outros povos e culturas. Depois, por melhores que sejam as lembranças das coisas boas que vivemos nessas terras, não há nada que pague o regresso ao nosso cantinho, ao sossego do lar e à vida de todos os dias, interrompida algum tempo antes. Há, porém, uma outra viagem com o patrocínio destes novos tempos e potenciada por ventos de mudança soprando constantemente, que somos convidados a fazer percorrendo caminhos traiçoeiros até lá chegar: o mundo da solidão. Aliás, as novas regras da sociedade empurram-nos para lá sem quase darmos conta e, aos poucos, vamos caminhando para o abismo de onde já não se consegue sair. A solidão é uma questão preocupante e a OMS considera-a como um problema de saúde pública tal a complexidade das suas implicações. Hoje em dia estão criadas as condições propícias para que a solidão se instale, cresça e se fortaleça. Um estudo divulgado pelo ISCTE no passado mês de abril mostra que os portugueses têm vindo a conviver cada vez menos e nesta última década é bem notório o aumento do sentimento de solidão em especial entre os mais jovens, que vão deixando de fazer novos amigos. Se o bom relacionamento social está associado a maiores níveis de saúde, vale a pena pensar a sério no problema e tirar as necessárias conclusões. Por outro lado, há ainda outro fator a ter em conta que tem a ver com as novas formas de trabalhar onde as máquinas fazem tudo. O teletrabalho parece ter vindo para ficar e agora, ao contrário do que acontecia antigamente, tudo se passa em frente a um computador. Pode ser mais prático, mais completo, mais eficaz, mas, o que se ganha com estas novas tecnologias, perde-se no relacionamento humano, ficando apenas o isolamento. E quanto mais isoladas as pessoas estiverem, maior é a possibilidade de aparecer a solidão.

Em medicina nada muda, ou seja, também se trabalha em frente a computadores. A velha medicina da bata branca deu lugar à ‘medicina do computador’ e os doentes são os primeiros a aperceberem-se desta transformação. O computador manda, controla, avalia e ai daquele que se recusa a ‘obedecer’. Fica com uma má avaliação e é penalizado por isso. Dizia-me uma jovem, ainda não há muito tempo, que a sua nova médica de família durante a consulta não tirava os olhos do computador não sabendo sequer como era a sua cara! Fora da medicina a tendência para a máquina é idêntica. Já não se fala, mandam-se mensagens, já não se telefona, recorre-se aos e-mails e quando alguém tem alguma comunicação a fazer, utiliza as redes sociais. Nos estabelecimentos há cada vez mais máquinas em substituição dos funcionários que, pouco a pouco, vão desaparecendo, às horas das refeições já ninguém passa sem telemóvel e, por vezes, o silêncio nas salas chega a ser ensurdecedor. A desumanização é uma constante nesta nova sociedade, onde os velhos estão arrumados em gavetas sem ninguém querer saber deles. Cada qual vive para seu lado, mais isolado, caminhando para a solidão como fim da linha nesta viagem sem regresso. Um destino a evitar, sem dúvida, mas que baterá à porta de qualquer pessoa se nada for feito para o combater.

Dizia-me alguém a este respeito: «Não podemos ter medo de dizer não, quando é preciso dizer não». Há que reagir e não nos deixarmos ir na onda, custe o que custar. Lutar contra a desumanização seja em que área for, evitar isolamentos prolongados e investir na amizade procurando fazer novos amigos. É nossa obrigação e só depende de nós. Que ninguém se iluda: não é a sociedade que influencia o indivíduo. É o indivíduo que influencia a sociedade.

Médico