terça-feira, 18 ago. 2026

Quando a obra fala…

Meu caro presidente: aprecio o seu testemunho e felicito-o pela coragem de o expor publicamente. O seu exemplo não passou despercebido e pode ter ajudado sabe Deus quantos casais.

No passado dia 12 de junho, ao chegar a casa, a minha mulher alertou-me para o discurso de Carlos Moedas no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa aos noivos de Santo António. Fui ver e fiquei deveras agradado pelo conteúdo da sua mensagem a falar sobre o amor e o casamento aos casais que iam iniciar a sua vida matrimonial. Falar de amor é sempre difícil, mas ao mesmo tempo gratificante, ainda para mais no momento presente em que os temas das conversas são sempre os mesmos: as guerras, a violência, a corrupção, o futebol e os escândalos sexuais um pouco por toda a parte, situações que infelizmente sempre existiram e vão continuar a existir. Falar de casamento nos dias de hoje não é tarefa fácil visto, na maioria dos casos, os casais optarem mais por relações fugazes em que cada um procura viver o dia a dia a seu belo prazer dentro das suas conveniências sem qualquer compromisso ou responsabilidade. Numa intervenção curta mas carregada de significado, o nosso presidente da Câmara citou as ‘Lições de Santo António’ que mais se aplicavam aqueles que fizeram estes votos. «Quem ama não conhece dificuldades», acrescentando que «o amor é força quando estamos juntos». «Sem amor a fé esmorece», esclarecendo que a fé não tem só a ver com a fé católica e por fim, em sua opinião, a terceira e mais importante lição «a palavra é Viva Quando a Obra Fala» que vale por dizer que por mais bonitas e sinceras que sejam as palavras, sem obras, de nada valem. Neste contexto, como em tudo na vida, é fundamental haver coisas que se vejam, obras que falem para que as palavras sejam vivas e não possam ser levadas pelo vento. O casamento é disso um bom exemplo e não é por acaso que muitos ficam pelo caminho, pois, apesar das muitas promessas, ninguém está disposto a fazer cedências e as obras não chegam a falar. 

Fora deste tema mas dentro da linha da ‘3.ª Lição de Santo António’, também no meu ramo profissional há semelhanças. Há muitas palavras vivas que não o são porque as obras não falam. Quantas vezes não tenho aqui falado no SNS, dos cuidados continuados e paliativos desta área e onde estão as obras? Quantas vezes não tenho aqui chamado a atenção para o problema antigo da inexistência em Portugal dos hospitais de retaguarda e onde estão as obras? Tenhamos presente que cuidar dos mais velhos com dignidade (de quem tanto recebemos), dos que estão doentes e dos que estão no final da vida, também isso é uma prova de amor. É preciso passar às obras e não ficar só com as palavras. Em suma, muitas palavras que julgamos estarem vivas perdem-se no tempo e as obras não falam. Se olharmos bem, em todos os setores da sociedade isto acontece e não há ninguém que não conheça um só caso que seja. Voltando ao discurso de Carlos Moedas, o que sinceramente me fascinou foi o seu testemunho pessoal revelando publicamente os tais cinco minutos ao chegar a casa para falar e ouvir a sua mulher sem ninguém os interromper, prática esta seguida desde há vinte e seis anos. É obra! De facto «uma alegria partilhada é uma dupla alegria. Um desgosto partilhado é um meio desgosto».

Meu caro presidente: aprecio o seu testemunho e felicito-o pela coragem de o expor publicamente. O seu exemplo não passou despercebido e pode ter ajudado sabe Deus quantos casais. Afinal, só aos grandes homens se aplica plenamente a 3.ª Lição de Santo António: «A Palavra é Viva Quando a Obra Fala».

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