A vida não pára, todos sabemos isso e não há ninguém que possa negar essa realidade. A vida é o maior dom que podemos possuir e quantas vezes não lutamos por ela fazendo tudo para a defender? É o instinto de sobrevivência próprio do ser humano a conduzir os nossos passos, sempre a favor da vida. Cada um tem o seu lugar, o seu papel, a sua missão específica e, em conjunto, todos somos importantes e ‘insubstituíveis’ para que a vida continue.
Porém, a sociedade habituou-se a olhar para alguns enaltecendo o seu valor e a ignorar os outros, aqueles que vivem atrás do anonimato ou não aparecem à frente das luzes da ribalta. É uma ‘regra sociológica’ aceite por todos, apesar de se reconhecer que, para o sucesso de uns, é sempre necessária a colaboração de outros. Quando vamos ver um filme conhecemos os atores principais mas desconhecemos os secundários e, por vezes, o realizador, numa peça de teatro, sabemos quem são os atores ao contrário do encenador e autor da peça que, geralmente, a maioria ignora, no mundo da canção temos bem presente os intérpretes, mas, se nos perguntarem quem são os autores da letra e da música não sabemos responder e muitos mais exemplos eu podia citar provando que há um outro mundo de gente importante atrás dos holofotes da vida a trabalhar afincadamente para que outros brilhem nos papeis principais. Mas dessa gente não se fala e todos estão de acordo em considerar o seu papel fundamental para que a ‘máquina da vida’ não deixe de funcionar. Na minha área passa-se o mesmo. Há quem ‘apareça’ e se torne conhecido do grande público e quem trabalhe nos bastidores, por vezes, em posições mais ingratas e trabalhosas sem se saber nunca quem são. Em Portugal sempre se notou a tendência hospitalocêntrica quando se fala em Medicina. A palavra médico está logo associada a um hospital, a Medicina Familiar apesar de nos últimos anos ter crescido na comunidade, não consegue deixar de ser um ‘parente afastado’ enquanto a Saúde Pública é simplesmente ignorada aos olhos da opinião pública.
E se quisermos ser criteriosos numa apreciação isenta e rigorosa, nenhuma dessas três carreiras é inferior às outras. Cada um tem a sua missão específica e todas são importantes para o avanço da Ciência. Para que a Vida continue.
Dentro do mesmo contexto ao falar nos que ficam em segundo plano, que ninguém conhece nem sabe que existem, há aqueles cujo testemunho me fascina e é da maior justiça destacar aqui. Refiro-me aos que aceitam, depois da morte, doar o corpo à Ciência a pensar no bem que podem fazer aos outros. Se a Ciência está ao serviço da vida, olhando à Ciência está-se a olhar para a própria vida e a lutar pela vida. Por isso, o exemplo dessa gente é de uma riqueza incalculável e um ato de altruísmo de valor inestimável. Lembro-me, quando era estudante, nas longínquas aulas de Anatomia Descritiva, das muitas dificuldades que havia para se arranjar material humano suficiente de acordo com as necessidades dos alunos. Muitos anos depois, a minha neta Joana, também ela estudante de Medicina, depara-se com idênticas dificuldades. Sendo assim, sabendo-se que há seres humanos de um amor ao próximo sem limite a ponto de doarem o próprio corpo para que os mais novos possam crescer, a vida há de continuar e quem o faz receberá, na devida altura, a sua justa recompensa. Conheci algumas pessoas nestas condições. É para elas que eu hoje escrevo e presto a minha homenagem. Pessoas simples, discretas, que passaram por esta vida e deixaram a sua marca. Bem vincada, por sinal. Pessoas de quem a sociedade não fala, que não receberam aplausos, nem brilharam sobre as luzes que os homens só acendem para alguns. Gente de uma grande grandeza de espírito espantosa e de um perfil moral de outra dimensão. A todos eles quero manifestar o meu apreço e admiração. A História nunca esquecerá a vossa dádiva de amor. Para que a Vida continue.
Médico