quarta-feira, 13 mai. 2026

Onde está a prevenção? 

Por muito que se possa dizer, enquanto não forem tomadas medidas concretas e eficazes, vamos continuar eternamente a remediar, deixando para as outras gerações a resolução dos problemas que não sabemos prevenir. Esta é a realidade.

Não deve haver ninguém que não conheça o velho ditado popular que nos lembra quando o invocamos a vantagem de prevenir. Se não conseguimos atingir esse objetivo, não temos outro remédio senão remediar, como solução de recurso, na procura de um mal menor. Ao longo dos tempos o nosso país tem seguido invariavelmente essa linha, ou seja, fraco a prevenir e forte a remediar. E por mais voltas que se dê, não conseguimos sair deste ciclo vicioso. Então, é legítimo questionar: será assim tão difícil apostar na prevenção? Vamos ter de aceitar sempre esta realidade de passarmos a vida a remediar aquilo que não conseguimos prevenir?

No meu campo profissional é bem notória a falha na deteção precoce de certas doenças oncológicas, cardiovasculares e cérebro-vasculares. Pondo o problema de outra forma, estão a chegar aos hospitais doenças que deviam ter sido detetadas a tempo e horas nos cuidados primários e que escaparam ao controle dos médicos de família. Sendo assim, onde está a prevenção? As doenças sexualmente transmissíveis, em tempo estancadas devido em grande parte a várias campanhas de sensibilização junto da população, estão outra vez a aparecer um pouco por toda a parte, o que nos leva de novo a pensar: onde está a prevenção? As urgências hospitalares continuam a registar números assustadores, sabendo-se que uma elevada percentagem daqueles que lá recorrem o fazem por não terem resposta nos Centros de Saúde. Onde está a prevenção? Será mais fácil continuar a colocar ‘remendos’ ou ‘pensos rápidos’ aqui e acolá do que encontrar uma solução eficaz que acabe de vez com esse procedimento errado e recorrente?

Mas, não são só as urgências hospitalares, em especial nos períodos críticos habituais, que nos devem preocupar. Há outras situações que ciclicamente se repetem para as quais não investimos na prevenção e o melhor que conseguimos é tão somente remediar.

Todos os anos há incêndios no Verão com os prejuízos que isso acarreta, todos os anos há problemas com a colocação dos professores ao começar o ano letivo, todos os anos surgem inundações quando chega o Inverno. Porém, o mais caricato é já sabermos antecipadamente que tudo isso vai acontecer, que nós todos vamos sofrer as consequências e que nada foi feito para o evitar. Como é possível um país tão pequeno como o nosso não ser capaz de travar estas situações na altura certa? Ainda não há muito tempo, fomos atingidos por uma tempestade devastadora como não há memória em Portugal cujos estragos estamos e estaremos a pagar. São fenómenos meteorológicos que podem aparecer quando menos se espera, mas, para mim o mais chocante foi ouvir dizer a muitos responsáveis que não tinha sido feita qualquer prevenção fosse em que área fosse. Nomeiam-se comissões e mais comissões, fazem-se projetos e mais projetos, constituem-se grupos de trabalho e mais grupos de trabalho, reuniões atrás de reuniões, planos e mais planos e no fim qual é o resultado? Zero. E o que é que fica para a História? Nada. Veja-se, por exemplo, há quantos anos se fala na construção do novo aeroporto de Lisboa? Já se perdeu a conta. E quantos estudos se fizeram? Inúmeros. Que conclusão podemos tirar? Nenhuma. Com o nosso tradicional humor, há quem chame a este dossier a ‘telenovela do aeroporto’ pelos muitos capítulos que compõem a história.

Por muito que se possa dizer, enquanto não forem tomadas medidas concretas e eficazes, vamos continuar eternamente a remediar, deixando para as outras gerações a resolução dos problemas que não sabemos prevenir. Esta é a realidade.

Voltando à questão central, afinal onde está a prevenção? É a interrogação que fica no ar e que exige uma resposta rápida, clara e inequívoca. A prevenção? É muito simples: está nas nossas mãos!

Médico