segunda-feira, 14 set. 2026

Lili Neves - A ternura de uma vida

Lili Neves era uma senhora, no verdadeiro sentido da palavra. Uma cara de boneca, um sorriso suave e discreto, uma pessoa reservada...

Já tinha passado os noventa, mas, ninguém lhe dava a idade que na realidade tinha. Atriz, bailarina, encenadora, trabalhou também na rádio, na televisão e no cinema. Residia na Casa do Artista onde a conheci pessoalmente e deixou-nos está prestes a fazer três meses. Era uma senhora, no verdadeiro sentido da palavra. Uma cara de boneca, um sorriso suave e discreto, uma pessoa reservada. As suas mãos, já com a marca dos anos em cima, pareciam transmitir alguma coisa, como que a pedir auxílio. É este o retrato que faço de Lili Neves cuja voz ouvi vezes sem conta na rádio, à hora do almoço no programa dos Parodiantes de Lisboa nos meus tempos de estudante. Esta histórica senhora do teatro, de fino trato e esmerada educação, não teve uma vida fácil, mas, deixou a sua marca por onde passou, o seu testemunho, a sua ternura, sendo hoje recordada como uma profissional de reconhecido valor. Não esqueço as suas graças para comigo, a ternura do seu olhar e a doçura das suas mãos que se apertavam às minhas para que eu não me retirasse quando a visitava no quarto já no final da sua passagem por esta vida. «Não se vá embora, senhor Dr.», «não me deixe aqui sozinha», «tenho medo de ficar aqui sozinha». E agarrando a minha mão, com as poucas forças que tinha, não me deixava sair dali. Por aqui se vê como é importante a mão amiga que alivia a dor, a palavra simples que conforta e o sorriso que traz esperança. E apesar de tudo, este caso bem pode considerar-se uma exceção à regra pois, infelizmente, a maioria dos idosos no nosso país, nem sequer tem direito a uma velhice com dignidade. Ou são despejados em ‘depósitos’ vulgarmente designados por lares, alguns deles sem o mínimo de condições onde ninguém conhece ninguém, ou são ‘esquecidos’ nos hospitais passando a ‘casos sociais’ cujo internamento é assustadoramente dispendioso para o Estado, ou ficam sozinhos em suas casas estendendo a mão à caridade, como sucede muitas vezes aos casais sem família, quando um dos seus membros parte deste mundo. Tudo isto acontece num país que, por muito que nos custe reconhecê-lo, não está preparado para a terceira idade. Paradoxalmente, a esperança média de vida aumentou, o que significa que se vive até mais tarde e em vez de serem criadas condições para irem ao encontro dos envelhecimentos tardios, nada se faz em concreto. Nesta terra, os idosos sentem-se cada vez mais isolados e um peso para a família e para a sociedade. Veja-se, por exemplo, o que acontece no mercado de trabalho onde a pujança da juventude é sempre preferido à experiência dos mais velhos. Entre nós, o velho já não produz, não serve para nada, está a mais. Se olharmos à nossa volta, quantas mãos estendidas a pedir ajuda nós não encontramos? Quantas mãos a agarrar a nossa mão suspirando por um carinho? Quantas caras sequiosas de um sorriso nosso não se vê por aí? Onde estão os jovens do nosso país para poderem dar um novo rumo a esta tendência? A trabalhar no estrangeiro. A que porta podemos bater em caso de grande invalidez ou de dependência severa se não dispomos de cuidados continuados e paliativos adequados? A nenhuma. E quanto à saúde, podemos confiar no nosso SNS tal como está? A resposta fica à consideração de cada um.

Minha querida Lili: se a minha presença junto de si como médico e ser humano lhe deu algum conforto, lembre-se de mim na sua nova morada. Se contribuí como profissional para aliviar o seu sofrimento, não fiz mais que a minha obrigação. Se consegui com a minha presença dar-lhe breves momentos de ternura, não calcula como me sinto feliz. Um dia, quando nos voltarmos a encontrar numa outra dimensão, continuaremos a conversa sobre as suas graças no seu programa de rádio que tanto me divertiam e sobre as peças onde entrou contracenando com nomes sonantes do nosso teatro.

Até já, Lili Neves! Uma vida de ternura. A ternura de uma vida.

(À memória de Lili Neves)

Médico