Ao abordar este tema vou procurar ser isento e, acima de tudo, realista. A vida mudou, os tempos são outros e a maneira de pensar e de agir do ser humano acaba por sofrer inevitavelmente as influências da sociedade onde vivemos. É assim mesmo e nada podemos fazer para impedir esta evolução natural. Há quem lhes chame ‘modas’, mas a mim parece-me mais um problema de mentalidade. A eterna discussão filosófica se é o indivíduo a influenciar a sociedade ou a sociedade que influencia o indivíduo, não deixa ninguém esclarecido. Contudo, por muito que a sociedade possa influenciar o indivíduo, há sempre coisas na sua maneira de pensar das quais ele não abdica. São as suas convicções, isto é, os valores em que acredita, que não são influenciáveis e morrem com ele. Infelizmente, em nome de uma modernidade que traz consigo novas formas de pensar e de agir, as convicções foram ficando para trás, aparecendo em seu lugar oportunisticamente as conveniências. Viver como se pensa já lá vai, hoje pensa-se como se vive.
Tivemos ainda não há muito tempo uma campanha eleitoral e vários candidatos se perfilaram na corrida ao cargo do mais alto magistrado da Nação. Porém, quando se esperava uma apresentação de diferentes propostas para análise dos eleitores, assistiu-se, na maioria das vezes a acesas discussões entre os intervenientes chegando mesmo a lamentáveis acusações de parte a parte e ataques pessoais que em nada dignificaram a campanha. Então, para que serve uma campanha eleitoral? Para esclarecer os eleitores ou para confundir os eleitores? E, de acordo com analistas e comentadores, deve ter sido a campanha em que os eleitores estiveram mais confundidos onde o excesso de sondagens e outros estudos de opinião feitos quase diariamente, tiveram imensa influência em quem ia votar. Os resultados não se fizeram esperar e ouviram-se expressões do género: ‘gosto muito de um mas vou votar no outro’, ‘este ofereceu-me mais garantias’, ‘vou no voto ‘útil’, entre outras, dizem tudo.
Perante tais afirmações, eu pergunto: onde estão as convicções de cada um? Vota-se por convicção ou por conveniência? Muitos outros exemplos eu podia aqui citar onde se vê nitidamente que, para alguns, convicções é coisa do passado e conveniências é aquilo que mais se vê.
No meu ramo profissional também já há poucas convicções e muitas conveniências. No Serviço Nacional de Saúde há quem sirva o sistema e quem se sirva do sistema. Enquanto uns aproveitam as suas fragilidades para tentar corrigir o que está mal e procurar soluções para fazer melhor, outros aproveitam-se dessas fragilidades em proveito próprio a pensar nas suas conveniências. Nas questões fraturantes a nível da saúde ainda há quem defenda intransigentemente as suas convicções, quando outros (se calhar a maioria) preferem alinhar no politicamente correto indo a reboque das conveniências.
Quando se avançar um dia para a sempre adiada reestruturação do SNS vão ser precisas pessoas dedicadas, trabalhadoras e com espírito de missão. Pessoas certas nos lugares certos, ‘vestindo a camisola’ por opção e não por exclusão. Convictamente e não convenientemente. ‘Não se pode servir a dois senhores’. Ou defendemos as nossas convicções custe o que custar, ou entramos no mundo das conveniências para onde esta sociedade parece querer empurrar-nos mesmo sem nós darmos por isso. A escolha é nossa. Só depende de nós. Cada um deve agir de acordo com a sua consciência defendendo os valores em que acredita, não tendo necessariamente de obedecer a novos modelos ou outras formas de estar na vida. Tenhamos presente o pensamento de Confúcio: «Se vires um homem com mérito tenta ultrapassá-lo, se vires um homem sem mérito examina-te». Não estará na altura desta sociedade olhar para si própria e examinar-se?
Médico