Na semana passada, o Rei Carlos III inaugurou o Schwarzman Centre for the Humanities na Universidade de Oxford. Esta inauguração evidencia que as Humanidades e o seu estudo têm um papel central na revolução da Inteligência Artificial (IA).
Em 2018, Stephen Schwarzman financiou, no Massachussets Institute of Technology, a sua School of Computing. Passados oito anos, Schwarzman reconhece que é preciso “descobrir o que é fundamentalmente humano antes de decidir que tecnologias devem ser realmente implementadas”. Schwarzman pretendia fomentar a aceleração tecnológica e a MIT School of Computing foi desenhada para responder ao desafio tecnológico dos sistemas de IA avançados, garantindo que as salvaguardas éticas fundamentais fazem parte do curriculum das ciências da computação. Quando abordou a Universidade de Oxford, a principal preocupação do filantropo já tinha evoluído para uma ansiedade mais profunda e existencial, antecipando que a própria definição de humanidade estava prestes a ser desafiada. Concluiu que, antes de se poder regular ou implementar a IA de forma segura, é necessário primeiro definir o que é intrinsecamente insubstituível pela IA. A tecnologia está a evoluir de forma tão rápida que devem ser as Humanidades a definir e a informar-nos sobre os limites que as tecnologias devem poder explorar e implementar.
O novo Centre for the Humanities em Oxford combina os departamentos clássicos de humanidades (filosofia, história, literatura inglesa, línguas modernas e medievais, música, teologia e religião) mas também o Institute for Ethics in AI e o Oxford Internet Institute. Mesmo numa Universidade com um modelo naturalmente multidisciplinar, por via do seu sistema de Colleges, em que académicos de múltiplas áreas convivem numa mesma comunidade, é profundamente simbólico que o foco deste grande investimento filantrópico seja nas Humanidades e na promoção do seu diálogo com os maiores desafios tecnológicos que se colocam à sociedade no Séc. XXI.
O antigo presidente do MIT, L. Rafael Reif, referiu a importância de formar engenheiros bilingues, tão fluentes na IA como no seu domínio específico, mas reforçou também que a importância das “artes liberais” nunca foi tão grande. A presença da IA em todas as áreas da ciência e da engenharia torna esta alerta ainda mais importante para a formação de todos os universitários e para a necessidade de também os engenheiros serem bilingues nas artes liberais. É por isso que as alterações nos curricula, com uma formação mais completa, verdadeiramente universal e humanística, devem ser reforçadas e aceleradas.
O Técnico lançou há alguns anos, com bastante sucesso junto da generalidade dos estudantes, a obrigatoriedade de todos os estudantes de licenciatura completarem um conjunto mínimo de créditos em Humanidades, Artes e Ciências Sociais (HACS), em unidades curriculares realizadas noutras unidades orgânicas da Universidade de Lisboa. Este importante e premonitório passo deve ser acompanhado por um passo adicional: uma maior presença de professores que promovam o diálogo entre as Ciências/Engenharias e as Humanidades. A verdadeira interdisciplinaridade não se faz com presenças esporádicas ou com seminários convidados, mas em discussões permanentes e contactos informais entre académicos, quebrando os silos disciplinares que são frequentes na academia e na ciência. É assim importante promover Joint Appointments ou colaborações mais estreitas, nos departamentos e unidades de investigação de ciências e engenharias, com historiadores e filósofos, linguísticas e filólogos, sociólogos e antropólogos que, fazendo a ponte com as ciências e as engenharias, promovam o diálogo e o “atrito ético” das Humanidades no momento exato em que a ciência e a tecnologia é desenvolvida.
John Tasioulas do Institute for Ethics in AI tem alertado para os perigos da "Mentalidade de Optimização", prevalecente em muitos dos mais importantes atores da IA, que reduz o mundo a métricas que se destinam a maximizar as preferências humanas. Assim, e no contexto actual, as Humanidades não são um luxo para estudar o passado; são um verdadeiro escudo da Humanidade para o nosso futuro automatizado, definido por algoritmos, e para refletirmos sobre os limites éticos da tecnologia.
No século XXI, o teste definitivo das Universidades e das suas faculdades de ciência, engenharia e tecnologia não será apenas focado na sua dimensão técnica e científica, mas também na importância da consciência humana nas suas atividades e na capacidade de criar e potenciar inovadores bilingues, engenheiros e cientistas fluentes nos seus domínios e nas questões que, de Oxford ao Técnico, as Humanidades nos obrigam a responder.
Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa