Numa série recente de artigos de leitura obrigatória, denominada “Lost Science”, o The New York Times está a analisar as consequências da política científica norte-americana e da redução de financiamento em projetos apoiados por múltiplas agências. Novas ideias ficam por explorar, equipas desmembram-se, novos produtos ficam por desenvolver e o conhecimento técnico e científico é perdido. O eterno otimismo dos cientistas parece desvanecer-se nas dificuldades actuais que atravessam quase todas as áreas da ciência. Os decisores políticos aparentam esquecer-se da origem do poderio global norte-americano e de como esse domínio se alicerça nos avanços científicos e tecnológicos dos últimos oitenta anos. A ciência perde-se quando o financiamento deixa de ser previsível: perdem-se ideias, mas perdem-se também equipas, competências acumuladas, infraestruturas e a confiança necessária para assumir risco científico.
Os desafios geopolíticos globais pressionam também os países europeus, que, localmente, têm dificuldades para manter níveis de financiamento competitivos. Neste contexto adverso, os financiamentos europeus, que se mantêm afortunadamente estáveis, tornaram-se um porto seguro e um recurso fundamental para muitas equipas em toda a Europa.Os diferentes programas de financiamento são inundados com candidaturas e, consequentemente, as taxas de aprovação reduzem-se para valores que não permitem separar o sinal do ruído: propostas de qualidade são rejeitadas, equipas competentes ficam sem financiamento, mais ciência é perdida. Apenas na China, como previ no meu último artigo, encontramos o optimismo contagiante dos cientistas e o financiamento crítico para alimentar novas ideias, lançar novos paradigmas, melhorar a vida das pessoas e criar novas tecnologias.
É assim natural que até as mudanças mais bem intencionadas no sistema científico nacional sejam, neste contexto fortemente turbulento e restritivo a nível internacional, acompanhadas de receio e desconfiança pela comunidade científica. Existindo um reconhecimento de oportunidades de melhoria significativa no funcionamento e na operação de agências como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia ou a Agência Nacional da Inovação, é também evidente que o desafio principal continua a ser o financiamento. Não só o financiamento por investigador (com ou sem correção pelo poder de compra) é fortemente desigual (e inferior em Portugal, quando comparado com países como Chéquia, Espanha, Itália, Irlanda, Suécia, Alemanha, Suíça ou Estados Unidos) [1], como existe uma forte assimetria dentro do país. Por exemplo, considerando a agregação analítica Lisboa e Vale do Tejo utilizada no relatório [2], esta região é a que apresenta maior intensidade científica e.g. via intensidade de investigadores, tanto por população ativa como por habitante, ou maior capacidade de atração de projetos competitivos [4] mas, por outro lado, é a 4ª zona do país em financiamento público anual em I&D por habitante e até abaixo da média nacional, atrás do Norte, Centro e Alentejo [2]. Nos indicadores de resultados, e.g. publicações e patentes, o indicador em que Portugal está claramente abaixo dos nossos congéneres europeus é (para além do financiamento) no número de patentes por milhão de habitantes: cerca de cinco vezes abaixo da média europeia e muito abaixo de países como a Alemanha, Países Baixos e a Finlândia [2].
Este contexto é motivo de reflexão e preocupação, mas também de optimismo. Uma hipótese plausível, que merece ser testada de forma sistemática, é que a baixa intensidade de patentes em Portugal esteja relacionada com a capacidade laboratorial e experimental instalada. A transformação de conhecimento em tecnologia e em valor económico requer equipamentos científicos, novas metodologias experimentais, prototipagem, ensaios e validação; todas estas dimensões dependem de investimento público continuado em equipamentos e infraestruturas científicas que, nos últimos anos, tem sido escasso e territorialmente assimétrico. Assim, e existindo já uma base significativa de investigadores, o maior desafio da nova agência AI2 é criar os instrumentos e as condições de financiamento que permitam transformar esse potencial em novas ideias, novas tecnologias e valor para o país, para que nenhuma ciência seja perdida.
Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa
[1] L. O. Silva, Desafios para o futuro das ciências exatas em Portugal, Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, 2026, no prelo
[2] E. Campos Ferreira (relator) et al., Análise Quantitativa das Capacidades Instaladas e das Dinâmicas do Ecossistema Nacional de Investigação e Inovação, Fevereiro de 2026 https://ai2participa.pt/docs/RelatGrupoTrab_PT.pdf (acesso em 26 de abril de 2026)