Se podemos pensar que 2025 não foi um grande ano para a Ciência, 2026 promete ser um ano ainda mais complexo e desafiante. Não me refiro, naturalmente, aos avanços científicos e tecnológicos que, em todos os laboratórios e em todo o Mundo, continuam a maravilhar-nos. No entanto, a ciência e os seus valores fundamentais, a ciência como instrumento para compreendermos e prevermos o mundo, a forma como a ciência é feita e o seu financiamento, assim como a perceção do seu valor social, encontram-se em profunda transformação.
Em 2025, comemoraram-se os 100 anos da Mecânica Quântica de Werner Heisenberg, com uma conferência em Helgoland, um pequeno arquipélago alemão no Mar do Norte para onde Werner Heisenberg se retirou para daí emergir com a sua versão da Mecânica Quântica. Em 2025, e na física [1], descobriram-se novas propriedades exóticas dos metais, exploraram-se propriedades fundamentais da anti-matéria, inventaram-se novas formas mais eficientes de transmitir informação em fibras ópticas, iniciaram-se os primeiros tratamentos oncológicos utilizando novas técnicas com protões, desenvolveram-se modelos meterológicos para exoplanetas, e fizeram-se as imagens com maior resolução de um só átomo num material, algo que deixaria o próprio Heinsenberg surpreendido.
2026 promete ser um ano desafiante. Nos Estados Unidos, é previsível que se mantenham a instabilidade e a incerteza políticas, inimigas da ciência de qualidade, associadas aos cortes financeiros e à reestruração das agências de financiamento, e às pressões governamentais, directas e indirectas, sobre as universidades, as ciências sociais e humanas, as ciências biomédicas ou as alterações climáticas. A natureza colaborativa da ciência moderna significa que, também na Europa, sentiremos esta turbulência.
Em contraponto, na China assistimos a um crescimento e investimento fortíssimos, recentemente reafirmados e reforçados nas recomendações para o próximo plano quinquenal [2], com o objectivo explícito de assegurar a liderança em ciência e tecnologia. A China reproduz o modelo americano do pós-guerra, descrito no relatório Science, the Endless Frontier, de Vannevar Bush, que estabeleceu a visão sobre o papel essencial da ciência na sociedade e sobre a responsabilidade dos governos em apoiar a descoberta e a exploração científica. Com cada vez mais frequência, observaremos grandes avanços científicos com origem na China e 2026 só acelerará esta dinâmica.
Um ano depois dos relatórios Draghi e Heitor, os cientistas na Europa continuam sem sentir as transformações na ciência europeia que eram aí identificadas como críticas, apesar dos alertas de alguns dos seus líderes. Por exemplo, a presidente do Conselho Europeu de Investigação, Maria Leptin, de forma algo resignada e implicitamente assumindo que muitos avanços importantes não serão protagonizados pela ciência europeia, reforçou o alerta do relatório Draghi: “(…) para tirar partido do conhecimento científico produzido noutros locais, é necessário dispor de pessoas com as competências necessárias para o aplicar.”
Sam Altman, o CEO da OpenAI, a empresa responsável pelo ChatGPT, declarou 2026 como o ano da Inteligência Artificial (IA) para a Ciência. Os avanços da ciência com recurso à IA continuarão a acelerar à medida que os cientistas exploram todo o seu potencial, mas a própria IA está a abalar as fundações da ciência moderna. Por exemplo, o website de referência arXiv, que publica muitos artigos em acesso aberto antes da sua publicação em revistas com revisão pelos pares, deixou de aceitar, por exemplo, artigos de revisão de literatura em ciências da computação que não tenham sido aceites para publicação em revistas científicas dada a facilidade com que passou a ser possível produzir esse tipo de artigos com IA. O editorial de 18 de dezembro de 2025 do The New England Journal of Medicine AI [3] foi ainda mais longe demonstrando a facilidade com que é agora possível produzir dados falsos, gráficos, estudos e análises que são suficientemente convincentes para ultrapassarem testes automáticos e revisores humanos, um género de fake science. O mesmo editorial reforça também que os incentivos para os cientistas devem ser fortemente repensados, aproveitando igualmente a IA, de forma a reforçar a confiança (dos pares e do público) na ciência e no processo científico.
Em 2026, a ciência continuará a inspirar-nos e a melhorar a vida de todos. Mas será também um teste ao próprio sistema científico. Entre cortes, rivalidade global e os desafios (e riscos) da IA, a Europa — cientistas, instituições, decisores e sociedade — tem um dever simples e exigente: investir em talento e em mecanismos robustos de verificação e transparência, ou resignar-se a importar conhecimento sem capacidade para o dominar. A ciência precisa de liberdade, estabilidade e confiança; e a Europa deve ambicionar ser o melhor lugar do mundo para a fazer.
Professor do Instituto Superior Técnico
[1] https://physicsworld.com/a/top-10-breakthroughs-of-the-year-in-physics-for-2025-revealed/
[2] https://english.www.gov.cn/news/202510/28/content_WS6900adb9c6d00ca5f9a07216.html [3] https://ai.nejm.org/doi/full/10.1056/AIe2501273