Porter, os clusters e a economia portuguesa

Sem pruridos ideológicos, considero que um ministro como eu num governo liberalizante e pró-mercado não está impedido de desenvolver iniciativas em prol do nosso desenvolvimento económico e industrial.

O Prof. Porter era na altura em que eu como ministro da Indústria lancei o Projeto Porter, década de 90 do século passado, um reputado guru de estratégia empresarial, para onde evoluiu a partir da economia industrial (que no fundo é microeconomia aplicada).

O Projeto seguiu a teoria desenvolvida no seu livro The Competitive Advantage of Nations, contemplando duma forma sistémica as duas ferramentas teóricas do modelo Porter: o diamante (a tradução correta em português seria losango) e a teoria dos clusters.

Esses clusters setoriais evoluíram hoje em dia no contexto da Teoria do Desenvolvimento Endógeno (de Paul Romer), que deu suporte à Economia do Conhecimento (Knowledge-based economy), para regiões de desenvolvimento tecnológico com um incremento da fertilização cruzada entre universidade e empresas high-tech e com um sistema sofisticado de entidades de serviços relacionados e de suporte ao funcionamento das empresas. Esta clusterização passou a ser aplicada universalmente em todos os países que aspiram ao desenvolvimento económico e industrial. O dr. Armindo Monteiro, presidente da CIP, mostrou a meu ver uma deficiente perceção da importância dos clusters nas modernas economias quando na edição do Nascer do SOL de 3 de julho no excelente artigo «Porque falha o pais no desequilíbrio do poder?» afirmou comentando os clusters do Projeto Porter: «Não queremos uma economia de direção central». É uma afirmação puramente ideológica que não tem nada a ver com o papel importantíssimo que os clusters devem ter numa economia de mercado, economia de mercado que sempre defendi com grande convicção para o nosso pais.

Mais do que o modelo (pois que os modelos são sempre redutores da realidade e como tal discutíveis), o mais importante foi a dimensão mediática do Projeto e a constituição de grupos de trabalho entre empresários, associações empresariais, universidades e administração pública para implementarem as recomendações do Projeto, o que iria gerar grandes e dinâmicos efeitos na sociedade e na economia portuguesas. Conseguimos pôr o pais a discutir politicas económicas para a nossa competitividade, deslocando o debate da macroeconomia para a microeconomia e para as politicas de apoio à competitividade empresarial. Embora a iniciativa tenha sido minha como ministro da Industria, não condicionei ninguém e todos, empresários e respetivas associações, se expressaram livremente .Neste artigo do Nascer do SOL, os líderes da CIP e do IDL também parecem ter encontrado um pecado original no Projeto Porter pelo facto da iniciativa ter sido minha como ministro da Indústria. Novamente revelam algum enviesamento ideológico... Sem pruridos ideológicos, considero que um ministro como eu num governo liberalizante e pró-mercado não está impedido de desenvolver iniciativas em prol do nosso desenvolvimento económico e industrial, o que fiz, como no Projeto Porter, em cooperação estratégica com as empresas e empresários privados. Só espero sinceramente que este estudo que agora e em boa hora a CIP e o IDL encomendaram ao meu amigo Prof. Nuno Palma que depois pediu a colaboração do Professor e Prémio Nobel da Economia J. Robinson (um dos autores do celebrado livro Why Nations Fail) venha a suscitar na opinião pública e nos meios económicos e empresariais o mesmo interesse e entusiástica adesão que teve o Projeto Porter na altura. Muito ganhará o pais e a economia portuguesa com esta excelente iniciativa da CIP e do IDL.

Engenheiro (IST) e Economista (MSc Nova SBE),
Ministro da Indústria e Energia (1987-1995),
Coordenador do Observatório da Indústria, Inovação e Energia da SEDES