terça-feira, 21 jul. 2026

A sensorização nos telemóveis 6G vai mudar as nossas vidas

As aplicações desta nova tecnologia vão permitir revolucionar os processos, serviços e produtos de muitas empresas. Mas vão também permitir a nós, consumidores, poder tirar partido delas.

Já estamos habituados a usar o nosso telemóvel para fazer localização e navegação, isto é, para saber, em termos geográficos, onde estamos e como podemos ir para um qualquer outro local. Esta funcionalidade mudou os nossos hábitos, no sentido em que nos habituámos a ver se há problemas de trânsito quando nos deslocamos rotineiramente de carro entre casa e trabalho, ou quando usamos o telemóvel para nos guiar num percurso que não nos é habitual. Em consequência, algumas coisas começaram a ficar obsoletas, como informação sobre trânsito na rádio ou mapas em papel, e têm tendência a desaparecer (como outras de que já nos esquecemos: quem tem ainda uma lista telefónica em casa?). Mas a contínua evolução da tecnologia vai mudar ainda mais as nossas vidas.

A 5ª Geração (5G) de redes de comunicações móveis já funciona em Portugal há cerca de 5 anos e, na sequência do ciclo de 10 anos que temos vivido para a introdução de uma nova geração, a definição da 6ª Geração (6G) já está a ser feita, esperando-se que possa começar a funcionar por volta de 2030. Entre as novas funcionalidades que se preveem para o 6G está a banalização da sensorização, ou seja, de obter informação típica de sensores em aplicações até agora inimagináveis.

As redes de Internet das Coisas (IoT – Internet of Things) já permitem obter informação muito variada, através dos sensores que as compõem, que vai desde temperatura e humidade até à deteção de cheias em rios ou de fogos em florestas, ou mesmo de intrusos num local. A sensorização nas redes 6G vai poder ser feita através das antenas instaladas no topo mastros ou de edifícios, assim como por intermédio das fibras óticas enterradas no subsolo (desde os ambientes urbanos até aos rurais). A grande vantagem é que não vai ser necessária a instalação de sensores como nas redes IoT, e que muitas outras aplicações vão ser possibilitadas.

Para se atingir este objetivo, as antenas vão passar a funcionar como radares, isto é, a transmitir e receber sinais específicos, para além dos que carregam as nossas comunicações, que permitem que estas funcionem como sensores, através da análise da perturbação da propagação dos sinais no ambiente que rodeia as antenas. Um processo semelhante será usado para as fibras óticas. As antenas vão passar a usar lobos de radiação que permitirão localizar a perturbação do sinal, e as fibras óticas vão também ser usadas de modo a se poder saber onde ocorreu essa perturbação. Esta tecnologia, que salvaguarda a privacidade das pessoas, vai permitir generalizar a sensorização de uma maneira nunca vista, uma vez que existem milhares de antenas espalhadas pelo território e milhares de quilómetros de fibra ótica enterrada também em todo o território.

As aplicações são imensas, como por exemplo: criação de corredores para drones e detetar se estes estarão a voar fora desses corredores; obtenção de informação precisa sobre o tráfego automóvel nas ruas; deteção de intrusos em certos locais; monitorização de solos, em termos de humidade ou temperatura; controlo de vibração de infraestruturas (por exemplo, pontes ou barragens). Todos estes casos vão estar associados à coleta (anonimizada) de dados, que, depois de processados com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial, vão permitir construir o “mundo novo”.

As aplicações desta nova tecnologia vão permitir revolucionar os processos, serviços e produtos de muitas empresas. Mas vão também permitir a nós, consumidores, poder tirar partido delas através de novos terminais que irão estar disponíveis para além dos telemóveis, como serão os óculos de realidade estendida. Para além disso, os veículos autónomos (os que não necessitam que sejam guiados por um humano) poderão tirar partido desta tecnologia para se deslocarem de modo seguro em todos os ambientes.

Teremos ainda que esperar uns anos para que tudo isto se torne realidade, mas podemos começar já a poupar dinheiro para comprar uns óculos de realidade estendida e um veículo autónomo…

Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa