Esta semana inicia-se a décima edição do programa Lab2Market do Técnico. Nascido há 10 anos de uma ideia de António Brandão de Vasconcelos, e em estreita parceria com a multinacional tecnológica NTT Data, o programa tem treinado investigadores em tecnologias sofisticadas, as chamadas deep tech, não para satisfazerem uma necessidade óbvia do mercado, mas para descobrirem as aplicações mais valiosas partindo daquilo que já dominam. Ao contrário do ensino tradicional de empreendedorismo e inovação, onde se insiste que os estudantes devem primeiro identificar um problema no mercado e depois procurar uma solução, esta colaboração entre a investigação académica e o olhar pragmático dos consultores da NTT Data usa o modelo de technology-push, onde a tecnologia empurra a inovação.
O paradigma que aplicamos no Lab2Market deriva de uma lógica de decisão empreendedora proposta por Saras Sarasvathy denominada de efetuação. Em 2001 publicou um estudo seminal em que analisou 30 fundadores de empresas de sucesso e descobriu que, sob pressão e incerteza, eles ignoravam quase todos os manuais de MBA e usavam uma lógica baseada em meios, não em fins. A efetuação diferencia o pensamento causal, associado à gestão, do pensamento efetivo, usado por empreendedores. No primeiro, o ponto de partida é o objetivo, e o processo de inovação passa pela reunião de todos os recursos necessários para o atingir. O segundo começa pelos meios disponíveis, limita o risco definindo a perda aceitável, agrega parceiros, transforma imprevistos em oportunidades e foca-se em controlar o que se pode influenciar, construindo o futuro por experimentação iterativa mais do que por previsão.
Estas ideias continuam, lamentavelmente, a ser ignoradas pela maioria dos decisores políticos e empresariais na Europa. O atraso na competitividade europeia face aos Estados Unidos não é apenas uma questão de capital ou de escala; é uma questão de modelo mental. Enquanto o pensamento causal, dominante nas nossas instituições, se foca em definir objetivos ambiciosos para depois procurar os recursos necessários, o pensamento efetivo ensina-nos a começar por identificar com detalhe todos os recursos que já temos. O ciclo de efetivação leva o inovador a testar potenciais objetivos que vão sendo avaliados e alterados em função do seu potencial valor e dos recursos adicionais que vai conseguindo adquirir. Pelo contrário, o modelo planificador acarreta processos de decisão morosos para definir objetivos que, uma vez fixados, se tornam difíceis de alterar, mantendo a economia refém de burocracias e previsões plurianuais que o mercado se encarrega de destruir em poucos meses.
A ideia de que os meios devem preceder os fins não nasceu do nada. Herbert Simon, prémio Nobel da Economia e que foi o orientador de doutoramento de Sarasvathy, deu-nos o conceito da racionalidade limitada, que nos recorda que a nossa capacidade de processar informação é finita e que nunca teremos dados suficientes para prever o futuro com precisão. James March propôs a "Tecnologia da Tolice", para combater a "ditadura da razão", oferecendo aos nossos estudantes e investigadores a liberdade de agir sem um objetivo final rígido, permitindo descobrir novas preferências e utilidades através da experimentação pura. March defendia que a brincadeira e a ação exploratória são fundamentais para a inovação, pois é na ação que descobrimos o que realmente queremos. Do mesmo modo, a "Estratégia Emergente" de Henry Mintzberg ensina-nos que a direção de uma empresa de sucesso resulta frequentemente de padrões que emergem de ações quotidianas, e não de planos deliberados traçados num vazio estratégico. Quando focamos a aprendizagem exclusivamente no pensamento causal, estamos a treinar navegadores que seguem mapas. Os exploradores precisam de aprender a navegar pelas estrelas, confiando nos recursos que levam consigo e na capacidade de ajustar o rumo conforme o vento.
Para o leitor, a distinção entre estes dois modelos de pensamento pode parecer académica, mas é, na verdade, a diferença entre a paralisia e a realização. Ao pensar numa alteração significativa à sua vida, como mudar de carreira ou abrir um negócio, já deve ter sentido o bloqueio de não saber como obter o capital ou as competências que pensa serem necessárias para essa mudança. O pensamento efetivo propõe o inverso: avalie quem é agora, o que já sabe e quem já conhece. Partindo desses meios, poderá ver que objetivos se tornam possíveis. Esta valorização dos recursos intelectuais e da aprendizagem contínua é o que permite transformar o que temos numa vantagem imparável. Cabe aos mais experientes, que já trilharam estes caminhos de incerteza, influenciar os mais novos a reconhecer o valor imenso do que já trazem consigo, em vez de os deixar deslumbrados por metas distantes para as quais não têm base de sustentação.
A famosa frase atribuída a Henry Ford, "se eu perguntasse às pessoas o que queriam, diriam um cavalo mais rápido", ilustra na perfeição os inconvenientes de um processo de inovação puramente causal e focado no mercado. A tecnológica portuguesa Feedzai é hoje líder mundial na deteção e prevenção de fraudes financeiras, no entanto, os seus fundadores estavam a desenvolver investigação em tecnologias de bases de dados para o processamento de grandes quantidades de informação em tempo ultra-rápido. Quando foi criada, em 2011, a área de aplicação mais óbvia era competir com outros fornecedores de bases de dados. Na altura ninguém pensava que a chave para a deteção da fraude financeira estava nesta tecnologia, mas, felizmente, os fundadores e investidores iniciais seguiram o processo da efetuação e de technology-push para lá chegarem. O futuro da competitividade e do ensino da inovação exige que paremos de tentar adivinhar o que o mercado quer, dando ferramentas aos nossos talentos para criarem o que o mercado ainda não sabe que pode ter.
Luis Caldas de Oliveira
Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa