terça-feira, 09 jun. 2026

A Curiosidade na Era da IA

O papel da educação precisa de passar do foco na acumulação de informação para o domínio da agência, ou seja, capacitar o jovem para mudar de consumidor de respostas para arquiteto de perguntas, provando a sua competência e reivindicando o respeito e estatuto que merece.

Em 2014, Gijsbert van der Wal fotografou um grupo de jovens, focados nos seus telemóveis, enquanto sentados em frente ao extraordinário quadro de Rembrandt "A Ronda da Noite". Esta imagem tem sido usada para ilustrar o enorme impacto do telemóvel no desenvolvimento dos jovens que passaram de uma infância baseada no brincar para uma baseada no telemóvel. A disponibilidade de todo o conhecimento na palma da mão coloca no jovem a dúvida sobre a necessidade da aprendizagem e da memorização, acentuada por processos de ensino concebidos antes da existência destes equipamentos. Juntam-se agora, a capacidade do acesso em língua natural e a de realizar cadeias de raciocínio complexas para responder às questões dos utilizadores. É fácil compreender a nossa frustração, como pais e educadores, quando confrontados com o "porquê esforçar-me se a Inteligência Artificial (IA) faz melhor do que eu?".

O livro "A Geração Ansiosa", de Jonathan Haidt, explica o impacto das alterações na infância. Quando uma criança está aborrecida, o seu cérebro entra em modo exploratório para encontrar um interesse ou uma novidade, ou seja, ativa a curiosidade. O telemóvel é um bloqueador do tédio, preenchendo qualquer vazio com gratificações imediatas. A curiosidade exige concentração, o chamado estado de fluxo, onde os recursos cognitivos estão de tal forma focados que perdemos a noção da passagem do tempo. O telemóvel é um fragmentador da atenção com notificações constantes e formas rápidas de mudança se os primeiros segundos dum conteúdo não capturarem o nosso interesse. A vida online passou a ser um exame permanente: qualquer erro pode ser partilhado e ridicularizado. Para manter o estatuto social, é melhor não tentar do que falhar. Criámos um sistema digital tóxico para a curiosidade.

A infância digital está a ter um grande efeito nos jovens que recebemos no sistema universitário. Muitos estudantes sentem que o estudo é um anacronismo de tempos em que o conhecimento não estava à distância de um clique e os problemas do professor não podiam ser resolvidos pela IA. A Teoria da Autodeterminação de Edward Deci e Richard Ryan postula as três necessidades básicas dos humanos: a autonomia de sentirem que têm o controlo sobre as suas escolhas, livres de pressões externas; o sentimento de competência que permite dominar desafios cada vez mais difíceis; e o relacionamento com o outro sentido-se respeitado e compreendido pelo valor do seu contributo para a comunidade. O jovem universitário dos dias de hoje tem muito baixa tolerância à frustração académica que destrói o seu sentimento de competência, ao contrário da experiência de gratificação imediata da sua infância. A vigilância e o controlo parental da sua infância, que atualmente é exercido mesmo depois da maioridade, atrofiam a sua autonomia. A importância dada à sua imagem digital no seu relacionamento com o outro, conduz a um medo extremo de errar ou de ser julgado e a dar muito maior importância

à classificação obtida do que ao conhecimento adquirido. O constante consumo passivo de conteúdos selecionados por algoritmos resulta em apatia e em falta de curiosidade intelectual.

David Yeager, professor de psicologia da Universidade do Texas em Austin, tem centrado o seu trabalho na transformação da ciência do comportamento em intervenções práticas para mudar a trajetória de vida dos adolescentes. Esse trabalho encontra-se sintetizado no seu livro de 2024, com o título "10 to 25", onde argumenta que os educadores caem em dois erros quando lidam com esta geração de jovens. O primeiro é o exercício de uma mentalidade de controlo, autoritária, o que gera rebeldia por contrariar a necessidade de estatuto e respeito do jovem. O segundo erro é a mentalidade de proteção, sendo permissiva e baixando as expectativas, que sinaliza ao jovem a falta de confiança na sua competência. Para Yeager, o cérebro entre os 10 e os 25 anos é um "detetor de respeito". Dizer "tens de saber isto porque é importante para o teu futuro" ou "não podes usar a IA" reduz o seu estatuto à obediência. A solução proposta é a mentalidade de mentor que reúne padrões elevados com a garantia de apoio. Um mentor dirá: "Estou a dar-te o desafio de dominar este conceito complexo sem ajuda externa porque sei que és capaz de o superar". Para um jovem querer saber ou fazer algo, é necessário que sinta que esse esforço o torna uma versão melhorada e respeitada de si mesmo.

O papel da educação precisa de passar do foco na acumulação de informação para o domínio da agência, ou seja, capacitar o jovem para mudar de consumidor de respostas para arquiteto de perguntas, provando a sua competência e reivindicando o respeito e estatuto que merece. Para criar jovens curadores de informação, em vez de pedir um resumo, podemos pedir-lhes que gerem versões com IA e usem o seu conhecimento crítico para identificar as partes mais medíocres. Yeager também descobriu que os adolescentes esforçam-se mais quando sentem que o seu trabalho serve para algo maior do que "tirar uma nota", por exemplo, quando os problemas envolvem situações reais como a justiça social ou a ética. É, também, necessário reenquadrar o sucesso na época da automação: num mundo em que todos têm acesso à mesma IA, ganha quem sabe fazer as perguntas que mais ninguém fez, quem é curioso.

Como pais e educadores devemos perceber que o importante é o eterno valor da mente humana curiosa e não a defesa do sistema em que a nossa se desenvolveu. Devemos ver os nossos educandos não como um problema para resolver, mas como um motor de elevada potência que precisa de um combustível diferente daquele que estamos habituados a usar, e que vale a pena estudar o que está a acontecer. Afinal, os jovens em frente ao quadro de Rembrandt não estavam a jogar ou nas redes sociais, estavam a ler sobre a obra que tinham acabado de observar, respondendo a questões e aprofundando o conhecimento usando a aplicação interativa do Rijksmuseum.

Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa