terça-feira, 09 jun. 2026

Um primeiro-ministro sem ponta por onde se lhe pegue

Facilmente se percebe porque não deram os órgãos de comunicação social portugueses o destaque que Montenegro achava que merecia: a sua intervenção foi um ovo. Não teve ponta por onde se lhe pegue. E os efeitos que acredita que que tal vacuidade vai ter revelam um homem deslumbrado que acha que os portugueses são parvos. Não são.

O primeiro-ministro (PM) português deslocou-se, no final da semana passada, à Alemanha em visita oficial. Regressado ao retângulo luso, num comício do PSD, queixou-se que os órgãos de comunicação social não tinham dado devida conta de tão importante jornada onde falou «para mais de dois mil empresários da economia mais poderosa da Europa».

Uma intervenção onde, garantiu, foi «agraciado com respeito espontâneo» de tão importante plateia, sempre que falou «da situação e económica e financeira» do nosso país, do «ímpeto transformador» e «das reformas» que está a levar a cabo neste pedacinho da União Europeia.

Discurso que, adivinhou, vai ser uma alavanca para os nossos jovens terem «uma oportunidade de emprego» e que podem trazer para Portugal «grande investimento». Uma benesse para «pequenas, médias e microempresas», bem como para «investidores e trabalhadores» portugueses. «Vai haver. Está a haver efeitos muito positivos. Mais do que nunca», assegurou.

Ou seja, o PM foi à Alemanha, falou para a milionária nata empresarial daquele país e a suas palavras foram tijolos para uma estrada que vão trazer camiões de investimento e emprego para Portugal.

Mas afinal o que disse Luís Montenegro naquele fórum onde havia uma fonte de euros em cada cadeira? A página oficial do Governo na internet revela as extraordinárias palavras de Montenegro.

O primeiro-ministro começou por sublinhar que «Portugal e Alemanha têm vivido sempre sob o mesmo céu europeu» e considerou que «nunca como hoje tivemos tanto potencial para partilhar o mesmo horizonte». Defendeu ainda que Portugal deve ser visto «não simplesmente como mais um ator europeu, mas como um parceiro estratégico» e que a sua visita representava «uma oportunidade de podermos aproveitar o potencial de cada um para o transformarmos em mais capacidade de criação de riqueza, de crescimento económico e de bem-estar para as nossas populações».

O PM afirmou também que «a engenharia e capacidade de planeamento alemãs e a capacidade portuguesa de adaptação e execução formam uma combinação poderosa». Ainda segundo o site do Governo, Montenegro sublinhou «a transformação da economia portuguesa na última década, assente em contas públicas equilibradas, crescimento sustentado e maior capacidade exportadora».

Facilmente se percebe porque não deram os órgãos de comunicação social portugueses o destaque que Montenegro achava que merecia: a sua intervenção foi um ovo. Não teve ponta por onde se lhe pegue. E os efeitos que acredita que que tal vacuidade vai ter revelam um homem deslumbrado que acha que os portugueses são parvos. Não são. Já o provaram várias vezes e mais recentemente quando ignoraram olimpicamente o anúncio/propaganda que fez com o PTRR prometendo rios de mel.

Por isso, Luís Montenegro e as sua palavras, dentro e fora do país, e os seus anúncios têm hoje em dia cada vez mais lugar no espaço que merecem: o programa de Ricardo Araújo Pereira na SIC, Isto é gozar com quem trabalha, onde já compete taco a taco com André Ventura por mais tempo de antena.

*…se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato! (do poema Portugal de Alexandre O’Neill)

Jornalista