quinta-feira, 11 jun. 2026

Onde há pobreza não há verdadeira liberdade

Não se pode descansar quando se fica a saber que quase 30% das crianças pobres vivem em situação de privação material e social e metade não participa regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer e muitas enfrentam limitações básicas, como convidar amigos para brincar em casa ou participar em visitas de estudo pagas.

Os dados revelados na passada semana pelo relatório ‘Portugal, Balanço Social 2025’ elaborado por investigadores da Nova SBE são um forte murro no estomago. Das cerca de 300 mil crianças pobres em Portugal, uma em cada 20 teve fome e não comeu por falta de dinheiro. Sejam, pois, bem-vindos à realidade que contraria o país das maravilhas que, semana atrás de semana, o primeiro ministro propagandeia.

Alguns dirão que o estudo até nos trás boas notícias, já que nos assegura que o risco de pobreza em Portugal caiu de 17% em 2023 para 15,4% em 2025. Não, não traz.

Não se pode falar em boas notícias quando o relatório nos diz que cerca de 1,5 milhões de pessoas ainda continuam na pobreza. Mais, que sem os apoios sociais, a taxa subiria para 40,3%. Ou seja, mais de quatro milhões de pessoas.

Não se pode ficar contente quando a taxa de risco de pobreza entre crianças apenas caiu de 22,8% em 2008 para 17,8% em 2024 e que cada uma em cada seis crianças até aos cinco anos continua a viver em situação de pobreza em Portugal.

Não se pode descansar quando se fica a saber que quase 30% das crianças pobres vivem em situação de privação material e social e metade não participa regularmente em atividades extracurriculares ou de lazer e muitas enfrentam limitações básicas, como convidar amigos para brincar em casa ou participar em visitas de estudo pagas.

Por mais que os números da pobreza estejam a baixar nos últimos anos, ainda que de forma tímida, tudo o que relatório nos revela é um país miserável. Continua a haver milhares de pessoas sem terem uma vida digna e isso devia fazer disparar todos os alarmes. Tal como aconteceu no passado, não se acendeu uma única luz vermelha. Foi tudo pura e simplesmente ignorado pelo Governo e até pelos dois principais partidos da oposição.

Sim, ao longo dos anos têm sido criados programas de apoio aos mais necessitados e os subsídios têm contribuído para a descida da pobreza e da fome em Portugal. Não têm passado, porém, de paliativos. Resolver o problema exige políticas públicas robustas, integradas e orientadas para os fatores estruturais que a reproduzem e estas nunca foram feitas.

Um estudo da Fundação Manuel dos Santos, indicou, em dezembro do ano passado, os caminhos a trilhar para o combate a esta tragédia, mas foi mais uma vez ignorado. As transferências sociais são essenciais, mas insuficientes por si só. Impõe-se uma abordagem articulada que promova emprego digno, rendimentos adequados e a efetiva garantia dos direitos sociais.

Mais, é imperativo combater o conformismo e o fatalismo relativamente à pobreza, rejeitando a ideia da sua inevitabilidade. É igualmente urgente desconstruir os estigmas e estereótipos que incidem sobre as pessoas em situação de pobreza. Este não é um problema individual dos pobres, mas uma responsabilidade coletiva que afeta toda a sociedade.

Nelson Mandela defendia que erradicar a pobreza não é um mero «gesto de caridade», mas um «ato de justiça» e uma defesa da dignidade humana, alertando que onde há pobreza «não há verdadeira liberdade».

«Enquanto a pobreza, a injustiça e a desigualdade persistirem no mundo, nenhum de nós pode verdadeiramente descansar», afirmou. Que ninguém descanse um só minuto.

*…se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato! (do poema Portugal de Alexandre O’Neill)

Jornalista