O jornal Aurora do Lima cumpre no próximo dia 15 de dezembro 171 anos de vida. Reza a sua história que, aproveitando a abertura política da Monarquia Constitucional, José Barbosa e Silva, um jovem de 27 anos deputado às cortes, e o seu amigo Camilo Castelo Branco, de 30 anos e que já se apresentava como jornalista, romancista e novelista, decidiram lançar em Viana do Castelo, um periódico de cariz político, mas não só.
Tal como ainda hoje está escrito no seu estatuto editorial, o seu objetivo era «noticiar, informar e cultivar, servindo o melhor possível os seus leitores, a cidade onde nasceu, bem como o Alto Minho e o país em geral».
O jornal afirmou-se rapidamente. Pelas suas páginas deixaram marcas grandes nomes da sociedade, política e cultura portuguesa. Passou pelo liberalismo constitucional monárquico, viveu e noticiou implantação da República, resistiu aos 42 anos da ditadura e sobreviveu aos dias agitados do pós 25 de Abril de 1974.
Ainda assim, a maioria dos portugueses desconhecerá a existência deste periódico histórico que é o segundo mais antigo de Portugal e foi, durante muitos anos, a principal fonte de informação dos minhotos, vivem-se eles no pais ou fora dele.
Hoje, como a maioria da comunicação social, o Aurora do Lima vive dias difíceis. Tem, porém, conseguido resistir à morte que apagou muitos outros títulos regionais, graças ao empenho dos seus proprietários, trabalhadores e colaboradores e a alguns apoios do Estado que, ainda assim, mal chegam para pagar a sua impressão.
A chamada ‘desertificação noticiosa’ - regiões onde a informação não chega por não haver distribuição nem pontos de venda; a crescente resistência dos leitores em pagarem por uma informação independente e o aumento de custos de produção motivam graves problemas financeiros e colocam cada vez mais pedras no caminho da sobrevivência da comunicação social regional.
E cada vez que morre um media, a democracia leva uma facada. No caso da chamada imprensa local é também desferida uma facada no jornalismo de proximidade e na divulgação dos temas regionais que não chegam aos grandes meios.
Não se pode deixar morrer quem pode fazer a uma maior vigilância independente do trabalho autárquico e quem contribui para a divulgação e defesa do património e da cultura local. Não de pode deixar correr para o fecho quem contribui para a construção da identidade coletiva em territórios muitas vezes esquecidos e tem um papel fundamental na preservação da memória regional e nacional.
O Aurora do Lima é apenas um exemplo do leque da imprensa regional que luta pela sobrevivência - cerca de três dezenas igualmente centenários -, que ao longo dos anos têm contribuído de uma forma única para fazer a ligação entre os cidadãos e o seu território.
Cabe ao Estado Central e às autarquias apoiarem estes veículos informativos de uma forma mais efetiva, nomeadamente através da preservação do seu património que conta de forma única a história de Portugal dos últimos mais de 150 anos. Cabe aos empresários locais valorizarem estas fontes de informação e beneficiarem da sua proximidade às gentes locais. Cabe aos seus leitores participarem na sua vida de uma forma exigente contribuindo assim para a sua independência.
Cabe a todos nós não deixar morrer as ‘auroras’ deste país.
*…se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato! (do poema Portugal de Alexandre O’Neill)
Jornalista