Under Destruction

O mote da Conferência de Segurança de Munique 2026 não foi um mero exercício retórico. Foi um retrato fiel do tempo político que atravessamos.

O mote da Conferência de Segurança de Munique 2026 não foi um mero exercício retórico. Foi um retrato fiel do tempo político que atravessamos. Num mundo marcado pela guerra na Europa, por tensões crescentes entre potências e por uma instabilidade geopolítica persistente, a sensação dominante é a de que as próprias regras do jogo estão a ser corrompidas.

Nas intervenções de personalidades como Marco Rubio, Gavin Newsom e Volodymyr Zelensky, tornou-se evidente que a ordem internacional que conhecíamos atravessa um momento de profunda transformação. Já não discutimos apenas a gestão de crises. Discutimos a sobrevivência e a reinvenção das instituições que garantiram estabilidade nas últimas décadas.

Vivemos uma era política dominada pela lógica da wrecking ball, a política da bola de demolição. Em vez de se debater a renovação ou a reforma institucional, cresce a tentação de destruir equilíbrios para erguer algo totalmente diferente.

Nos Estados Unidos, Donald Trump tornou-se o exemplo mais evidente desta tendência. Não se apresenta como um reformador paciente do sistema. Assume-se como disruptor. Como alguém disposto a abalar os pilares institucionais para provar que é possível construir uma nova arquitetura política.

A sua base de apoio olha-o como builder in chief, o construtor chefe. O fazedor. A construção de um novo salão de baile na Casa Branca é apontada como prova dessa capacidade executiva, por ridículo que possa parecer. Para os seus apoiantes, trata-se de um símbolo de eficácia e de liderança prática. Para a oposição, é a metáfora de um estilo de governação que desafia normas estabelecidas e que arrisca tratar a presidência como extensão da vontade pessoal de quem a ocupa.

Mas Trump é apenas o representante mais mediático de um fenómeno mais vasto. Um pouco por todo o mundo, líderes ascendem prometendo não reformar, mas demolir. Javier Milei empunhou uma motosserra como símbolo de campanha, defendendo cortes radicais no Estado. Elon Musk celebrou a disrupção com a proposta de um Department of Governmental Efficiency, o chamado DOGE, numa lógica em que a eficiência nasce da rutura. Multiplicam-se discursos que apelam à destruição de burocracias, tribunais ou acordos internacionais.

O impulso é comum. A crença de que a mudança significativa exige demolição e não reparação. Que o sistema está de tal forma comprometido que só a sua implosão permitirá um novo começo.

Este paralelismo é inevitável quando olhamos para a nova ordem internacional. Também ela se encontra num momento de transição instável. A arquitetura criada após a Segunda Guerra Mundial revela fragilidades evidentes. As alianças são testadas. As instituições multilaterais enfrentam contestação. Mas a alternativa ainda não está consolidada.

É precisamente neste contexto que a Europa tem uma responsabilidade acrescida. Se a lógica dominante for a da destruição, o risco é entrarmos num ciclo de fragmentação permanente e de ausência de regras claras. A União Europeia não pode responder com ingenuidade, mas também não pode abdicar da sua identidade. O seu papel deve ser afirmar-se como potência geopolítica capaz de reformar sem destruir, de reforçar instituições em vez de as esvaziar.

Consolidar a autonomia estratégica, investir na defesa, reforçar a capacidade industrial e tecnológica, proteger o Estado de direito. Não como palavras de circunstância, mas como pilares de uma afirmação europeia credível.

Under Destruction não é apenas o diagnóstico de uma conferência. É um aviso para o nosso tempo. Entre demolir e reformar existe uma escolha política. A primeira seduz pela rapidez e pelo impacto mediático. A segunda exige visão, responsabilidade e compromisso.

Se a nova ordem internacional ainda não está estabilizada, a Europa deve ser força de estabilização. Num mundo dominado pela política da bola de demolição, a nossa ambição não pode ser destruir melhor. Tem de ser construir melhor.

Eurodeputada PSD