Vivemos um tempo de disrupção em muitas dimensões das nossas sociedades e tenho vindo a refletir sobre os desafios que esta circunstância histórica nos coloca. Por um lado, temos a polarização dos movimentos sociais e políticos que se traduz no estado exponencial dos “ismos”: o populismo e o extremismo. Duas tendências que, não raras vezes, acabam em radicalismo. Por outro, a revolução tecnológica em curso, as redes sociais, a discórdia, os conflitos, a guerra. Observo a prevalência de um certo isolacionismo individual que se transporta para os assuntos da geopolítica e da geoeconomia. É uma certa viagem do individualismo para o isolacionismo. Terá sido uma pandemia que nos fechou em casa durante praticamente dois anos a principal responsável? Ou será uma tendência que se encontrava à espreita e que se consolidou naturalmente com o passar do tempo?
Foi com esta inquietação que visitei a Santa Sé, onde o grupo parlamentar do Partido Popular Europeu (PPE) foi recebido pelo Santo Padre. A audiência teve lugar na belíssima Sala Clementina, que estava repleta de eurodeputados. Uns católicos, outros protestantes, outros agnósticos ou ateus. Neste encontro, o Papa Leão XIV deixou várias mensagens importantes que merecem reflexão por servirem de farol moral na complexidade do mundo atual. Reflexões que, proferidas na sede universal da Igreja Católica, não se esgotam nas fronteiras do Vaticano.
Uma das mensagens que o Santo Padre partilhou tem a ver com uma lógica de equilíbrio de não confessionalidade na missão dos políticos em servir as pessoas. Nas palavras de Leão XIV, "ser cristão na política não significa ser confessional, mas deixar que o Evangelho ilumine as decisões que devem ser tomadas, até aquelas que não parecem obter um consenso fácil. Significa trabalhar para que não se perca o nexo entre a lei natural e a lei positiva, entre raízes cristãs e ação política". Ou seja, temos um líder religioso a pedir a decisores políticos que respeitem a separação clara entre Estado e Igreja - na linha do que Jesus Cristo defendia: "a César o que é de César". Ao mesmo tempo, o Santo Padre pede-nos que não ignoremos o que de mais importante representa a Fé Cristã, que molda a base axiológica - não ideológica - de um partido popular ou democrata-cristão: os valores que nos unem na nossa humanidade e, por isso, na nossa dignidade e nos nossos direitos. No fundo, sugere que a Lei não pode ser neutra, mas centrada na pessoa e na sua dignidade intrínseca ou - como um cristão diria - sagrada. Este humanismo não é apenas cristão. É uma bússola ética e moral para quem entende – como eu – que o princípio e o fim da política é a pessoa. Não o eleitor, mas a pessoa.
Outro aspeto que me parece importante salientar deste encontro é a referência à Liberdade. O Santo Padre defendeu que “ser cristão empenhado na política significa investir na liberdade, não numa liberdade banalizada, reduzida ao prazer, mas numa liberdade ancorada na verdade, que tutele a liberdade de religião, de pensamento e de consciência em todos os lugares e condições humanas”. Esta declaração é um apelo claro à vocação política de um cristão na promoção da liberdade humana como primordial em vez da defesa de interesses, ideologias ou programas partidários. Encontro ainda, nas palavras do Papa, distanciamento de
uma certa concepção contemporânea (frequentemente associada ao individualismo liberal) que entende a liberdade como mera ausência de restrições, como o direito de fazer o que apetece, ou como satisfação imediata de desejos. Essa liberdade é "banal" porque é superficial, esvaziada de sentido, e acaba por escravizar a pessoa aos seus impulsos em vez de a libertar. A “Liberdade ancorada na verdade” de que nos fala o Papa é a mais profunda. Não somos livres sozinhos, mas em comunidade, porque é na partilha com o outro, nesta “Casa Comum” de que falava outro Papa, que cumprimos a nossa natureza gregária e alcançamos o “direito à felicidade” que tantas vezes referimos, mas poucas vezes interpretamos.
Regressei de Roma tão inquieta como quando me encontrei com o Santo Padre, mas mais convicta naquilo que acredito ser a missão de um político. Uma missão de serviço e de entrega, mas sobretudo um caminho assente nos valores que não limitam a nossa liberdade, antes lhe dão sentido.