Na final do Mundial 2026, ao intervalo, Justin Bieber entrou em campo. Quem o anunciou foi Ted Lasso, a personagem a que Jason Sudeikis dá corpo numa série com o mesmo nome. Foi um golpe de marketing genial da Apple TV, uma vez que a próxima temporada da série estreia em breve. Mas, a entrada de Ted Lasso no palco do mundo da FIFA oferece uma reflexão sobre o futebol…
Ted Lasso nasceu em 2014, como uma campanha da NBC Sports para promover a transmissão da Premier League nos Estados Unidos. O sucesso foi tal, que a personagem ganhou vida própria na Apple TV, dominando audiências e conquistando fãs em todo o mundo. A história é simples: um treinador de futebol americano chega a Inglaterra para gerir um clube da Premier League sem perceber nada do jogo.
O que parece uma comédia de equívocos transforma-se rapidamente em algo mais profundo e inesperado. O espetador percebe, rapidamente, que o futebol é apenas o cenário. O que está verdadeiramente em causa é a integridade e a coragem de ser honesto, num mundo que tantas vezes recompensa o cinismo e a esperteza. E, apesar de ter o futebol como pano de fundo no desenvolvimento da história, o desporto é uma atividade manifestamente secundária.
É precisamente aqui que a série toca num nervo sensível do desporto real. Não de forma panfletária nem acusatória, mas pelo simples contraste que estabelece. Ted Lasso vive num universo onde os resultados se constroem em campo, onde a confiança entre treinador e jogadores é o único atalho que existe. E o espetador, ao mergulhar nesse universo, não consegue deixar de pensar no fosso que separa essa visão do futebol que conhece na vida real, com todas as suas sombras e ambiguidades.
O desporto de alta competição convive há muito com tensões que vão além do jogo. As pressões económicas, os interesses de clubes, patrocinadores e federações, as dúvidas que por vezes pairam sobre certas decisões são parte de uma conversa que o futebol nunca conseguiu encerrar. Não porque todos os intervenientes sejam desonestos, longe disso, mas porque o sistema criou ao longo dos anos condições em que a suspeita se instalou e dificilmente se dissipa. A verdade desportiva, esse resultado que deveria ser apenas o espelho fiel do que aconteceu em campo, tornou-se um conceito mais frágil do que qualquer adepto gostaria de admitir.
O que Ted Lasso propõe, consciente ou inconscientemente, é um regresso a algo mais simples. Que ganhar importa menos do que a forma como se ganha. Que um adepto que saiu do estádio derrotado, mas orgulhoso, vale mais do que uma vitória envolta em dúvida. Que a integridade, mesmo quando parece ingénua, é sempre mais duradoura do que a esperteza. São ideias que qualquer pessoa subscreve em teoria e que o futebol, na prática, vai adiando indefinidamente.
A quinta temporada da série estreia em breve, e com ela regressa um treinador que nunca precisou de nada mais do que acreditar – BELIEVE – genuinamente nas pessoas à sua volta. Num tempo em que o futebol real parece cada vez mais distante dessa ideia, talvez valha deixar que a ficção nos lembre daquilo que o jogo, na sua essência mais pura, podia e devia continuar a ser: menos espetáculo, mais verdade.
Eurodeputada PSD