A tempestade Kristin deixou um rasto de destruição em dezenas de municípios, cortou estradas, inundou habitações, desalojou pessoas, derrubou árvores e provocou falhas generalizadas no fornecimento de eletricidade. Eu própria fui afetada. Parte do telhado da minha casa, em Antanhol, Coimbra, ficou destruída.
Em retrospetiva, é importante assumir com frontalidade que nem tudo correu bem. A resposta demorou a chegar a muitos locais, houve falhas de comunicação e faltou capacidade de antecipação. Ainda assim, enquanto sociedade, não podemos cair facilmente na tentação de transformar cada catástrofe num jogo político. Até porque o histórico dos últimos anos mostra que não há Governos infalíveis.
O que há, isso sim, é uma exigência crescente de adaptação estrutural do país à realidade de fenómenos climáticos extremos, que deixarão de ser excecionais para se tornarem recorrentes. Por isso, numa lógica mais prospetiva, precisamos mesmo de mudar o paradigma com que pensamos a proteção civil, a adaptação do nosso território e das infraestruturas críticas.
Uma das medidas prioritárias tem de ser o investimento em fiação subterrânea, sobretudo nas zonas mais expostas a ventos fortes. Mas é preciso ir mais longe. Espanha criou, em 2005, uma Unidade Militar de Emergência especializada em resposta a catástrofes naturais. Tem sido comum prestarem-nos auxílio quando somos confrontados com incêndios de grande dimensão. É uma hipótese que Portugal deve estudar seriamente.
Mas o Presidente da República também avançou com uma proposta importante. Se estamos cada vez mais expostos a este tipo de fenómenos climáticos, será útil estabelecer-se um fundo nacional para emergências. É uma boa ideia. Os municípios já têm fundos de emergência municipal, ainda que insuficientes para fazer frente a prejuízos causados por fenómenos tão extremos. Um fundo nacional pode fazer a diferença entre agir no momento certo ou continuar a somar-se prejuízos decorrentes da degradação provocada pela ocorrência destes fenómenos.
No Parlamento Europeu, temos feito diligências para que o tema não saia da agenda pública. Já na próxima semana, em Estrasburgo, realizar-se-á um debate de urgência sobre a situação em Portugal. Queremos garantir visibilidade europeia e assegurar os apoios financeiros necessários à reconstrução das regiões mais afetadas. Mas queremos mais do que isso. Queremos colocar no centro da agenda europeia o debate sobre a preparação na resposta a catástrofes, a adaptação das infraestruturas e a solidariedade entre Estados-membros.
A tempestade Kristin é, para muitas famílias, um drama pessoal. Mas também pode (e deve) ser um ponto de viragem coletiva. O que está em causa já não é apenas o tempo que faz. É o tempo que podemos perder se não fizermos todas as mudanças que são necessárias. E o tempo que temos para nos adaptarmos é cada vez menor.
Eurodeputada PSD