terça-feira, 09 jun. 2026

Quando a guerra se trava sem soldados

A lição para a Europa é clara. Se hesitamos em inovar porque não sentimos urgência, os ucranianos provam o contrário.

A Ucrânia voltou a avançar. Pela primeira vez em mais de dois anos, Kiev recuperou várias centenas de quilómetros quadrados num único mês, invertendo a inércia do conflito. Antes disso, tinha já atravessado o inverno, a estação mais dura da guerra, com a Rússia a destruir infraestruturas energéticas e a empurrar civis para o frio extremo. Saiu mais forte. É cada vez mais nítido que os ucranianos não só não estão a perder, como estão a impor o ritmo no terreno.

A explicação cabe numa palavra: tecnologia. A Ucrânia trava hoje pequenas batalhas na frente sem um único soldado seu envolvido. Primeiro, uma vaga de veículos não tripulados explosivos limpa as trincheiras. Depois, drones aéreos perseguem quem foge. Por fim, robôs armados enfrentam, em combate terrestre, os soldados que resistem na retaguarda. Tudo controlado à distância, parte da frente de batalha, parte de Kiev. São zonas de cinco quilómetros quadrados, com contingentes russos abaixo dos duzentos homens. O nome diz tudo: ‘zona de morte’. Para quem é lançado pelo Kremlin, a probabilidade de regresso é mínima. O zumbido contínuo dos drones é tortura psicológica, sobretudo para tropas mal treinadas, com moral em baixo, em território que não é seu e que muitas vezes nem sequer é russo. As deserções multiplicam-se.

A Rússia não acompanhou esta evolução, sobretudo no domínio do equipamento não tripulado. Pesa aqui a decisão de Elon Musk em cortar o acesso russo ao Starlink. Sem essa rede, os drones russos ficaram sem comunicações fiáveis. A alternativa disponível é volumosa, quase do tamanho de uma mesa de jantar, contra os pratos mais pequenos que são os terminais Starlink. A maioria dos especialistas calcula que Moscovo recuou cerca de um ano nesta tecnologia.

Em paralelo, a Ucrânia aprofundou os ataques aéreos de longo alcance no interior russo. Refinarias, terminais de exportação e infraestruturas estratégicas têm sido atingidos, beliscando a receita do Kremlin. Um drone ucraniano chegou a atingir um prédio de luxo em Moscovo, episódio raro que sinaliza uma viragem: o conflito começa a tocar civis russos, à imagem do que a Rússia faz há muito na Ucrânia. Juntando-se o desinvestimento de Putin nas celebrações do Dia da Vitória, o encerramento do Telegram e a migração forçada para a aplicação estatal Max, vigiada pelo regime, percebe-se um descontentamento interno sem precedentes desde o início da guerra.

Ainda assim, Putin não tem pressão suficiente para um cessar-fogo. A economia russa está fragilizada mas resiste, sustentada pela escalada dos preços das matérias-primas. Os breves cessar-fogo e trocas de prisioneiros anunciados após contactos com o Presidente Trump, prontamente acusados de violação pelas duas partes, em nada alteram este quadro.

A maior mudança é outra: a autonomia crescente da Ucrânia. Kiev continua a precisar de apoio económico europeu, mas apenas vinte por cento do seu armamento vem dos Estados Unidos. Ao ritmo actual, daqui a um ano os sistemas militares americanos serão marginais no terreno. A Ucrânia tornou-se também a sociedade mais favorável à inteligência artificial no mundo, à frente do Japão. Não vê na IA uma ameaça ao emprego, mas uma condição de sobrevivência nacional.

A lição para a Europa é clara. Se hesitamos em inovar porque não sentimos urgência, os ucranianos provam o contrário. Num país que quer entrar na União Europeia, a defesa avançada e a inteligência artificial, com aplicações civis futuras, podem ser a maior aposta tecnológica do continente.

Eurodeputada PSD