sexta-feira, 10 jul. 2026

Player 0

Um adepto isolado pode sentir que a escolha de apanhar o metro em vez de usar o carro é um gesto demasiado pequeno para fazer diferença. Mas é precisamente aqui que reside a força da comunidade.

Como estamos em período de Mundial, e o desporto-rei faz as manchetes diárias, o artigo desta semana junta dois temas que não são a priori muito intuitivos: o futebol e o ambiente. Mas o que é que futebol e ambiente podem ter em comum?

Em cada cidade, vila ou aldeia, os clubes desportivos têm um vínculo de grande proximidade à comunidade onde estão inseridos. Fazem parte da identidade de um lugar. No futebol, o clube da terra é gerador de paixões, de alegrias e também de muito sofrimento. É um desporto que arrasta milhões de pessoas e tem, por isso, um caráter mobilizador ímpar.

Em novembro do ano passado, durante uma visita ao CEiiA Centro de Engenharia e Desenvolvimento, estive no pontapé de saída do projeto ‘Player 0’. O CEiiA e a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) uniram esforços com um desígnio: tornar o Mundial 2030 na competição mais sustentável da história do futebol.

A ideia é tão simples quanto engenhosa. O Player 0 é o adepto que, através de uma aplicação desenvolvida pelo CEiiA em Matosinhos, contribui de forma concreta para a neutralidade carbónica da sua seleção. O mecanismo é direto: sempre que um adepto se desloca aos jogos usando meios de mobilidade de baixo carbono, como transportes públicos, bicicleta ou sistemas de partilha, as emissões evitadas são quantificadas em tempo real pela tecnologia AYR e acreditadas à seleção nacional. Em competição, as equipas disputam não só os pontos em campo, mas também o título de seleção mais sustentável do torneio. O jogo, afinal, acontece também fora do relvado.

O que torna o Player 0 genuinamente inspirador é o seu caráter comunitário. Um adepto isolado pode sentir que a escolha de apanhar o metro em vez de usar o carro é um gesto demasiado pequeno para fazer diferença. Mas é precisamente aqui que reside a força da comunidade. A agregação das emissões evitadas tem um impacto coletivo muito significativo. Estima-se que, se apenas 5% dos adeptos da seleção portuguesa adotarem meios de mobilidade mais sustentáveis durante o campeonato, é possível anular entre 4,5% e 6,5% da pegada carbónica da equipa. A matemática da mudança é esta: muitos pequenos gestos, somados, fazem uma diferença real e mensurável. Este é um argumento relevante: não pede sacrifícios às pessoas, pede apenas que façam escolhas diferentes no seu dia a dia.

A iniciativa cresceu já para além das fronteiras portuguesas. O lançamento mundial do Player 0 aconteceu no Brasil, num jogo simbólico no histórico Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, que antecedeu uma conferência sobre o papel do desporto na mobilização da sociedade para os desafios climáticos. A ambição é chegar a 4 mil milhões de adeptos em todo o mundo, operando já em três regiões: América Latina, Europa e Ásia. Em Portugal, o FC Porto assume-se como um laboratório vivo de referência para o Player 0, colocando a sua experiência em sustentabilidade ao serviço da compreensão dos comportamentos dos adeptos e da valorização do seu impacto coletivo, demonstrando como a paixão pelo futebol pode acelerar a neutralidade carbónica do clube e da cidade.

É esta a grande lição do Player 0: a sustentabilidade não é uma causa reservada a especialistas ou tecnocratas. É uma causa de todos. O futebol, com a sua presença em cada bairro e a sua capacidade única de unir pessoas em torno de uma paixão comum, pode ser um dos maiores agentes de mudança do nosso tempo. Quando um adepto opta pelo autocarro em vez do carro para ir ao estádio, está a fazer muito mais do que poupar emissões. Está a jogar no lado do planeta.

Eurodeputada PSD