terça-feira, 09 jun. 2026

O silêncio ensurdecedor do PS

Um país onde a sede do partido do Governo é alvo de buscas policiais perdeu, no mínimo, a normalidade. E é aqui que vale a pena olhar para Portugal, e para o que não se ouve. O PS mantém-se em silêncio.

Esta quarta-feira, agentes da Guardia Civil entraram na sede nacional do Partido Socialista espanhol (PSOE), em Madrid. Recolheram documentação sobre alegados pagamentos do partido a uma antiga militante suspeita de tentar condicionar investigações judiciais. No mesmo dia, foram revistadas as casas de dois ex-líderes socialistas e de um empresário.

A resposta de Sánchez foi dada a partir do Vaticano, onde se encontrava com o Papa. Diz que se houver irregularidades, agirá com firmeza. É a mesma frase de há um ano, e de há dois. O método repete-se: distância física do problema, promessa genérica de rigor, expulsão pontual de quem ficou demasiado exposto, e a permanência no cargo como facto consumado. Sánchez não nega que o partido tenha um problema, mas limita-se a tratá-lo como algo que acontece ao seu redor e não sob a sua responsabilidade.

Pode discutir-se se há crime, e isso compete aos tribunais, porque a presunção de inocência não é uma formalidade dispensável. Mas há uma questão que não depende de sentença nenhuma. A de saber quando é que a acumulação de processos em torno de um governo deixa de ser um problema judicial e passa a ser um problema político. Não estamos perante um incidente, trata-se de um padrão.

Este foi o mais recente episódio de uma sequência que já vai longa: o caso Koldo, a investigação a Santos Cerdán, o inquérito que envolve a mulher de Pedro Sánchez, e agora a sombra que se estende ao seu antecessor, José Luis Zapatero.

Um país onde a sede do partido do Governo é alvo de buscas policiais perdeu, no mínimo, a normalidade. E é aqui que vale a pena olhar para Portugal, e para o que não se ouve. O Partido Socialista português mantém-se em silêncio. Não há declarações, não houve notas publicadas, não houve sequer o desconforto público que seria natural perante o estado do seu partido irmão.

Estamos perante um silêncio calculista. Mas a omissão tem um custo, e o custo mede-se pela distância entre o que se cala e o que se proclama. O mesmo PS que faz da exigência de transparência uma bandeira na oposição a Luís Montenegro, que promete metas claras no combate à corrupção e uma justiça mais escrutinável, não consegue pronunciar uma única palavra quando o problema tem a cor da sua própria família política.

E há um pormenor que torna este silêncio bastante menos cómodo. Em outubro de 2025, no congresso do Partido Socialista Europeu, José Luís Carneiro reuniu-se bilateralmente com Pedro Sánchez. Não foi um gesto isolado, porque em abril deste ano, na Global Progressive Mobilisation, a cimeira de líderes de esquerda realizada em Barcelona, o líder do PS foi ainda mais longe. Partilhou um vídeo ao lado do primeiro-ministro espanhol em que o descrevia como «uma inspiração pela forma como tem liderado uma agenda progressista» e «um exemplo para todos os socialistas democráticos».

As palavras de José Luís Carneiro foram ditas há cinco semanas. As buscas à sede do PSOE datam desta quarta-feira. Entre uma data e a outra, o que mudou não foi a natureza do problema espanhol, que já era conhecido. Mudou apenas a dificuldade de continuar a ignorá-lo.

A admiração por um líder estrangeiro é legítima enquanto incide sobre uma forma de fazer política, sobre a resistência à extrema-direita ou sobre a defesa de uma agenda social. Torna-se uma questão incómoda quando a figura elogiada é, cada vez mais, indissociável de uma estranha forma de viver e de governar sob suspeita. Uma democracia não se degrada num colapso súbito. Degrada-se por habituação, quando cada novo episódio é recebido com um encolher de ombros um pouco maior do que o anterior.

O PS português ainda vai a tempo de dizer que não é este o exemplo que segue. Mas cada dia de silêncio torna essa frase mais difícil de acreditar.