segunda-feira, 13 abr. 2026

Descarbonização Vs. eleitores?

A descarbonização pode ser, portanto, uma oportunidade para renovar a competitividade europeia e melhorar a qualidade de vida. Mas para que isso aconteça é preciso coerência política.

A descarbonização da economia europeia não é apenas uma resposta necessária às alterações climáticas. É também, e talvez sobretudo, um novo propósito económico. Ao fixar metas mais ambiciosas de redução de emissões, a União Europeia está a desenhar um caminho que exige inovação, acelera progresso tecnológico e, se bem gerido, pode traduzir se em mais conhecimento e maior crescimento económico.

A ideia não é nova. Joseph Schumpeter falou da destruição criativa como motor do desenvolvimento: novas tecnologias substituem as antigas e, nesse movimento, criam se oportunidades, empregos e riqueza. Mais recentemente, economistas contemporâneos, como Philippe Aghion, laureado com o prémio nobel da economia em 2025, reafirmaram essa visão, mostrando que a inovação impulsionada por desafios estruturais é um dos pilares do crescimento moderno. No contexto europeu, estes princípios encaixam com a própria história do projeto da União, que sempre assentou na combinação entre mercado, ciência e coesão social.

Mas a transição para uma economia de baixo carbono tem outra face, menos teórica e mais imediata. Milhões de europeus, incluindo muitos portugueses, sentem no dia a dia o impacto dos preços da energia e dos combustíveis. Quando o custo de encher um depósito ou de aquecer uma casa sobe de forma abrupta, a sensação de vulnerabilidade é real. Esses choques não resultam das escolhas dos cidadãos europeus. São decisões tomadas longe daqui, em mercados globais e em mesas onde a Europa nem sempre tem voz. Essa dependência de combustíveis fósseis condiciona a nossa competitividade e corrói os rendimentos das famílias.

Num mundo marcado por conflitos e incerteza, essa dependência fragiliza a nossa liberdade de ação. Limita a capacidade dos Estados e da União de proteger os valores que proclamamos e de garantir prosperidade aos Europeus. Se os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e devastadores, não forem razão suficiente para acelerar a transição, então a busca por autonomia energética deveria ser.

Garantir energia a preços acessíveis é uma questão económica, mas também de bem estar e justiça social. Não basta que a descarbonização torne as empresas mais sustentáveis se isso não se traduzir em melhorias concretas na vida das pessoas. Se os modelos de negócio das grandes superfícies ou das indústrias se tornarem competitivos graças a acesso privilegiado a energia renovável barata, enquanto as famílias continuam a pagar faturas elevadas, a narrativa da transição perde legitimidade. E quando a legitimidade se esbate, abrem se espaços para discursos demagógicos e populistas que prometem soluções fáceis à custa da ciência e da coesão social.

A política climática tem de ser pensada com as pessoas no centro. Isso significa desenhar medidas que reduzam o custo da energia para a indústria sem penalizar as famílias, que apoiem a modernização das empresas e ao mesmo tempo protejam os rendimentos dos mais vulneráveis. Significa também investir em infraestruturas que democratizem o acesso às renováveis, promover formação para os empregos verdes e garantir que os benefícios da transição sejam distribuídos de forma justa.

A descarbonização pode ser, portanto, uma oportunidade para renovar a competitividade europeia e melhorar a qualidade de vida. Mas para que isso aconteça é preciso coerência política. É preciso que as metas ambiciosas venham acompanhadas de políticas concretas que reduzam a exposição externa aos choques energéticos, que fomentem a inovação e que assegurem que os ganhos económicos se traduzam em rendimentos reais para as famílias.

Eurodeputada PSD