terça-feira, 18 ago. 2026

A Europa entre a força e a consciência

Um país como o nosso depende de uma Europa economicamente forte, mas também de uma Europa fiel à liberdade, ao Estado de direito, à dignidade humana e à paz

Que Europa queremos ser num mundo em que crescer já não chega, se pelo caminho perdermos aquilo que nos define?
Na semana passada a Irlanda assumiu a Presidência rotativa do Conselho da União Europeia. Este tema merece atenção em Portugal porque, mais do que gerir dossiers, ajuda a dar direção política à Europa num momento decisivo. E a direção que a Irlanda parece propor é clara: a Europa precisa de ser mais competitiva, mais segura e mais unida, mas sem abdicar dos valores que lhe dão legitimidade e identidade.

O sinal de alerta está à vista. Hoje, entre as 20 marcas de carros elétricos mais vendidas no mundo, nenhuma é europeia. Uma é americana. Todas as outras são chinesas. Este retrato vale mais do que uma estatística: mostra uma Europa que, apesar de talentosa e com um mercado de 450 milhões de consumidores, chega atrasada às corridas decisivas da economia global. O problema da Europa já não é apenas saber; é transformar conhecimento em escala, inovação em liderança, capacidade industrial em poder estratégico.

É por isso que a Presidência irlandesa se afirma particularmente relevante para Portugal. Quando a Irlanda coloca no centro da agenda a competitividade, a simplificação, a transição energética, a soberania tecnológica e a necessidade de recuperar terreno no digital e na inteligência artificial, está também a falar dos interesses portugueses. Para um país como Portugal, uma Europa mais competitiva significa mais capacidade de atrair investimento, criar emprego qualificado, fortalecer empresas exportadoras e posicionar universidades e centros de investigação em cadeias de valor mais ambiciosas.

A própria Irlanda é, neste ponto, um exemplo relevante. Ao longo das últimas décadas, soube usar a atração de investimento estrangeiro, em especial nas áreas tecnológica e farmacêutica, como motor de transformação económica. Criou condições para captar empresas globais, reforçou o seu perfil internacional e mobilizou a sua economia em torno da inovação, da qualificação e da abertura ao exterior. Naturalmente, nenhum modelo é reproduzível de forma automática, e a experiência irlandesa não está isenta de limites. Mas deixa uma lição importante: mesmo países de pequena dimensão podem afirmar-se no espaço europeu se tiverem visão estratégica, estabilidade e uma aposta clara no talento e na competitividade.

Portugal pode e deve olhar para este exemplo. Não para copiar a Irlanda, mas para perceber que a escala não é desculpa para a resignação. Num contexto europeu mais exigente, o nosso país precisa também de combinar ambição económica, atração de investimento, modernização produtiva e valorização do conhecimento.

As três prioridades destes 6 meses de presidência irlandesa ajudam, aliás, a enquadrar bem o debate. A primeira é a competitividade, porque a Europa precisa de voltar a produzir, inovar e liderar. A segunda é a proteção, num sentido mais amplo: proteger a democracia, os interesses estratégicos europeus, a segurança energética e a capacidade de decisão num mundo cada vez mais duro. A terceira é a unidade, porque sem coesão política a Europa perde força externa e relevância interna.

Estas três prioridades dizem muito a Portugal. Um país como o nosso depende de uma Europa economicamente forte, mas também de uma Europa fiel à liberdade, ao Estado de direito, à dignidade humana e à paz. É isso que distingue o projeto europeu. E é por isso que a mensagem irlandesa acerta no essencial: competir é indispensável, mas competir sem alma não pode ser o destino europeu.

A Presidência irlandesa recorda-nos, assim, uma verdade simples, mas decisiva: a força da Europa nunca esteve apenas no poder do seu mercado. Esteve, e terá de continuar a estar, na sua consciência, nos seus princípios e na sua capacidade de agir em conjunto. Para Portugal, essa é uma boa notícia. Porque numa Europa mais unida, mais competitiva e mais segura dos seus valores, teremos sempre mais condições para crescer, influenciar e proteger o nosso futuro.