A Universidade em Movimento Arriscar, com responsabilidade, na investigação e na inovação, é uma singularidade contrária ao adágio “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”.
Começo por enquadrar este artigo: ele resulta de uma reflexão sobre a experiência de muitos anos como professor de uma Escola de engenharia de topo na Europa, o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, aquando me foi atribuído o título de Professor Distinto.
A universidade é um espaço de liberdade por excelência, para pensar, aprender a esquematizar o pensamento, interligar o que parece disperso e esparso, perceber o que é novo e desconhecido. Atenta à sociedade e ao mercado de trabalho dos seus estudantes, mantém-se constantemente ativa na atualização dos métodos de ensino e de investigação, o que tem importância acrescida numa era de desenvolvimento acelerado da inteligência artificial. A universidade é uma comunidade de alunos, professores, investigadores e funcionários, rica em diversidade, mas unida nos objetivos e na ação. Destaca-se a importância dos funcionários, fazendo, muitas vezes, trabalho de formiguinha, pouco visível, eles prestam um serviço de valor incalculável, constituindo um dos três pilares fundamentais para o funcionamento do Técnico.
Desde o meu doutoramento há exatamente trinta anos, tenho sido responsável pelo ensino de disciplinas de licenciatura, com mais de trezentos estudantes, e de mestrado. Orientei mais de vinte estudantes que, entretanto, concluíram o doutoramento e ocupam posições de topo em universidades e empresas internacionais. Sublinho o adágio “ensinar é aprender duas vezes”. O Técnico atrai excelentes alunos, com eles aprendi tanto ou mais do que eles comigo. Devemos, todos, escutar com muita atenção as palavras da Professora Irene Fonseca, vencedora da edição deste ano do Prémio Universidade de Lisboa: “Era uma aluna medíocre a Matemática. Ter bons professores mudou tudo”. A atividade de ensino continuada e diversificada é essencial, naturalmente em proporções diferentes, para professores e investigadores universitários.
Na universidade, ensino, investigação e transferência de conhecimento andam de mãos dadas. Integrei, a partir de 1987, o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC), um instituto de investigação e inovação pioneiro em Portugal, fundado em 1980. Instituto privado e sem fins lucrativos (IPSFL), foi o primeiro a reunir academia, as universidades de Lisboa, em particular o Técnico, do Porto, de Coimbra e de Aveiro, e empresas. Fundado pelos professores José Tribolet e João Lourenço Fernandes, recém-doutorados nos Estados Unidos e em Inglaterra, serviu de modelo para o aparecimento de
várias outras instituições. O INESC teve um impacto significativo na criação de empresas de base tecnológica, como a Novabase, e de centros de tecnologia que estiveram na origem de organizações de interface com empresas ainda hoje existentes, para além de cinco institutos de investigação e desenvolvimento classificados com excelente e muito bom na recente avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Sou investigador de um deles, o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC-ID), instituto a que me orgulho de ter presidido durante seis anos. Destaco a riqueza do ambiente de investigação e de transferência de conhecimento, que sempre me proporcionou a flexibilidade necessária para participar em projetos de investigação com financiamento competitivo (p. ex., da União Europeia) e para estabelecer contratos com empresas de nível internacional (p. ex., Intel).
Apontaria, a partir desta minha experiência, dois vetores para o desenvolvimento contínuo das universidades: Internacionalização e Risco.
Urge fortalecer as ligações a redes INTERNACIONAIS de ensino superior e de investigação, quer a título institucional, quer através de colaborações individuais; promover a mobilidade de estudantes e professores — dou o meu testemunho sobre a importância das sabáticas que fiz como professor visitante na TU Delft (2004/2005) e, mais tarde, em CMU e na Universidade de Tsukuba. Atrair, internacionalmente, os melhores alunos e professores, não apenas estrangeiros, mas também os nacionais que, com oportunidades e ofertas irrecusáveis no estrangeiro, não conseguimos que voltem às nossas universidades. Neste aspeto, só reforçando a confiança e agilizando os processos de contratação de recursos humanos podemos elevar a competição de um patamar local e nacional a um nível verdadeiramente internacional. O ensino superior e a investigação de qualidade, indispensáveis ao país, só se alcançam e se mantêm em ambientes altamente internacionalizados.
E, não menos importante, promover e valorizar o RISCO, ao contrário do incremental, porque é certinho. Arriscar, com responsabilidade, na investigação e na inovação, é uma singularidade contrária ao adágio “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”. Competir nos fóruns mais exigentes e, por isso, mais arriscados, nas publicações e em concursos competitivos, como as bolsas individuais do European Research Council (ERC). Inovar e criar start-ups, aventura cujo insucesso não deve ser visto como um fracasso, mas sim como parte do caminho. Sente-se um movimento recente para contrariar a tendência de privilegiar a quantidade, valorizar o novo, embora arriscado. A universidade e a sociedade só ganham com este movimento.
A universidade é, por excelência, um espaço privilegiado para formar, pensar, discutir, é um espaço de liberdade! Estou certo de que o Técnico, atualmente presidido pelo Professor
Rogério Colaço, continuará a contribuir para a formação de gerações de engenheiros, cientistas e arquitetos, na construção de um mundo melhor do que o conturbado em que vivemos hoje.
Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa
* Texto adaptado do discurso proferido no Dia do Técnico 2026, no qual lhe foi atribuído o prémio Professor Distinto do Instituto Superior Técnico.