sexta-feira, 13 mar. 2026

“Trago uma pedra no bolso”

Os exemplos das baterias e dos semicondutores ilustram como na história da humanidade os recursos minerais têm desempenhado um papel central no desenvolvimento da tecnologia e da economia dos países

Roubo para este título um verso da banda Mães Solteiras, incluído no último, e muito recomendável, registo editado pela Omnichord Records no final de 2025 (“Vamos ser breves”). Considerações sobre panque-roque à parte, e desdobrando o sentido original do texto, dei por mim a especular sobre a pedra que normalmente carregamos no bolso, o telemóvel. Este equipamento eletrónico, que, no início, já teve peso e dimensões que se assemelhavam a verdadeiros calhaus, foi no início do século miniaturizado, tendo recuperado tamanho, e algum peso, com o aumento da sua capacidade de computação, a ligação à internet, e o consequente aumento do número de tarefas realizamos em qualquer lado a qualquer hora. Se a analogia entre pedra, tamanho e peso é relativamente direta, mas pouco relevante na prática, existem outras bem mais importantes.

A ligação mais óbvia está relacionada com a forma como estes equipamentos móveis se alimentam de energia. As baterias neles incorporadas são compostas por uma combinação de elementos químicos que incluí o lítio, o cobalto, o níquel e o cobre. Elementos químicos extraídos de minerais existentes em rochas localizadas à superfície da Terra ou a centenas de metros abaixo da superfície terrestre. É a descoberta do papel do lítio no armazenamento eficiente de energia que alavanca a revolução na eletrificação e armazenamento de energia que tem vindo a acontecer de forma acelerada. Mas há mais pedra nos nossos equipamentos eletrónicos.

A grande transformação tecnológica que permitiu não só o desenvolvimento do telemóvel, mas também do computador pessoal com dimensões que permitem a sua colocação sobre o tampo de uma secretária ou transportado às nossas costas, ao invés de ocupar uma sala inteira com condições de arrefecimento muito específicas, foi a invenção dos semicondutores em 1956. A invenção valeu o Prémio Nobel da Física aos seus criadores (William Shockley, John Bardeen e Walter Brattain). Os semicondutores funcionam como um interruptor eletrónico que pode tomar o valor digital de 0 ou 1, e quando combinados num circuito elétrico permitem realizar operações matemáticas de forma eficiente. E qual a relação dos transístores com os recursos minerais? Com a posterior descoberta do modo de fabricar transístor planos, estes passaram a ser inseridos em bolachas de silício, e estas combinadas em circuitos integrados que constituem o mundo digital que nos rodeia. É estimado que a indústria dos semicondutores esteja em terceiro lugar no número transações comerciais globais, atrás do mercado do óleo e gás e dos automóveis[1]. Um mercado global de tecnologia de ponta alicerçado na disponibilidade de quartzo de muito alta qualidade, o mineral de onde é processado o silício. Apesar de ser o mineral mais abundante na Terra, o grau de pureza exigido é tão elevado que este tem de ser extraído em localizações muito específicas. É o caso das minas de quartzo existentes na Blue Ridge Mountains, no Estado da Carolina do Norte (Estados Unidos da América), de onde há décadas é extraída a maior parte do quartzo utilizado nesta indústria. Há afinal mais pedra no nosso bolso do que frequentemente cremos.

Estes dois exemplos, das baterias e dos semicondutores, ilustram como na história da humanidade os recursos minerais têm desempenhado um papel central no desenvolvimento da tecnologia e da economia dos países. É devido à importância dos recursos minerais que a União Europeia atualiza regularmente sua lista de matérias-primas críticas[2], que o são pela sua escassez e importância estratégica para uma União líder no desenvolvimento tecnológico e segura de ameaças ao fornecimento destas matérias-primas. Estas são razões suficientes para que os Estados tenham serviços geológicos robustos equipados com todas as ferramentas necessárias para realizar o inventário, a avaliação e a gestão dos recursos minerais em território nacional terrestre e marinho. Serviços com capacidade para adquirir, processar e interpretar dados geológicos, geofísicos e geoquímicos que permitam executar estas etapas de forma consistente, e que estes dados estejam devidamente curados e disponíveis sempre que necessários. A criação da nova Agência de Geologia e Energia, a 20 de fevereiro de 2026, deveria servir para fazer bem (parafraseando os autores do título na mesma música) e garantir estas condições. 

[1] Varas, A. et al., ‘Strengthening the Golbal Semiconductor Supply Chain in an Uncertain Era’, 2021.

[2] https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:52020DC0474


Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa