Quando hoje ligamos um dispositivo à internet e obtemos uma resposta quase em tempo real a qualquer pergunta colocada a um motor de busca ou modelo de Inteligência Artificial (IA), fazemos uma chamada vídeo, assistimos à nossa série preferida num serviço de streaming ou enviamos mensagens através de e-mail a resposta é quase imediata. Se intuitivamente achamos que todo este mundo é desmaterializado, porque temos hoje maioritariamente acesso a redes de comunicação sem fios, o que permite a existência deste tipo de serviços é a troca de informação a grande velocidade entre servidores de dados, responsabilidade de uma rede de cabos submarinos de fibra ótica que atravessa o fundo dos principais mares e oceanos do planeta.
De forma simples, estes cabos são constituídos por dois fios de vidro muito finos, tão finos como um fio de cabelo, que se encapsulam um ao outro. A informação é transmitida através de pulsos de luz pelo fio interior que é refletida e refratada no fio exterior para não escapar. A qualidade e a pureza do vidro determinam a distância a que esta informação pode ser transmitida sem perda de qualidade. Na base da fibra ótica, e em grande parte de todos os materiais constituídos por vidro, das lentes dos nossos óculos aos componentes das cápsulas que permitem astronautas viajarem até à Lua, está o dióxido de silício (ou sílica). Este componente químico é também parte essencial na produção de cimento, que permitiu a construção de edifícios perenes e o consequente aumento da nossa qualidade de vida, e de semicondutores, que têm proporcionado uma revolução na forma como processamos grandes quantidade de dados. A sílica é um composto químico abundante nas rochas que constituem o planeta Terra, obtida através da mineração de quartzo onde a pureza deste mineral em sílica
determina a sua utilização. Por exemplo, o quartzo destinado à produção de fibra ótica é extraído maioritariamente no estado da Carolina do Norte, dos Estados Unidos da América, mas o seu processo de refinação e transformação envolve cadeias de valor globais e altamente especializadas e tecnológicas. Sobre estes processos e o modo como a nossa sociedade assenta num mundo de matérias-primas minerais, e é muito mais material do que nos lembramos no quotidiano, recomendo o fascinante livro de Ed Conway ‘Material World’.
Lembrei-me destes detalhes enquanto assistia em Pequim, há uns dias, ao Fórum China-Portugal de Ciência e Tecnologia em Clima e Energia na Universidade de Petróleo da China de Pequim (CUPB em inglês), no âmbito de mais uma iniciativa do Instituto de Investigação Conjunto Portugal-China para o Clima e Energia que co-coordeno no Instituto Superior Técnico com o Prof. Zonghu Liao da CUPB. Num encontro onde apresentámos as linhas gerais estratégicas para os próximos anos do instituto conjunto, estiveram também presentes entidades governamentais do setor energético e para a redução de emissões de dióxido de carbono e empresas privadas do sector da Inteligência Artificial que fornecem serviços de gestão de armazenamento e processamento de grandes quantidades de dados e computação de alto desempenho. Do mesmo modo que os componentes físicos desta tecnologia se desenvolvem sobre os recursos minerais, a sua utilização requer a gestão cuidada dos recursos energéticos.
No seu mais recente plano quinquenal, aprovado no início deste ano, a China coloca a Inteligência Artificial como motor da economia e central no quotidiano da população, muito pouco é feito hoje sem recurso a uma ou duas super-aplicações móveis. Este plano discute também como alimentar e melhorar a performance energética dos seus enormes centros de armazenamento e processamento de dados enquanto reduz as emissões de dióxido de carbono. A discussão passa hoje pela construção de centros de dados submersos no oceano para reduzir a necessidade de arrefecimento deste tipo de infraestrutura e o acesso fácil a
energia renovável, nomeadamente de energia eólica offshore. Infraestruturas que aproveitam plataformas antigas de produção de hidrocarbonetos, que estão em fim de vida e que o seu descomissionamento implica elevados custos e a interação com ecossistemas frágeis no fundo do mar.
As grandes transformações industriais do passado, associadas à produção e utilização do vidro, do cimento, do aço e o acesso fácil a energia, permitiram-nos, enquanto sociedade, construir ferramentas para melhorar a nossa qualidade vida. No passado, como hoje, estas tecnologias dependem da forma como utilizamos os recursos minerais e energéticos. A grande transformação que estamos a atravessar com a generalização da Inteligência Artificial não será diferente, para além das questões éticas de regulação desta nova tecnologia, é igualmente importante pensar como podemos tornar a sua utilização sustentável. Leonardo Azevedo Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa