quinta-feira, 11 jun. 2026

Do Alqueva ao país: a agricultura como motor de coesão

No fundo, o Alqueva mostra que a agricultura portuguesa pode evoluir, criar valor e ter um papel central no desenvolvimento do país. Num território com fortes desigualdades regionais, este tipo de investimento pode fazer a diferença.

Durante muito tempo, a agricultura portuguesa foi vista como um setor pouco dinâmico e com impacto limitado na economia. Hoje, essa ideia já não corresponde à realidade. Um dos melhores exemplos dessa mudança está no Alentejo, em particular no desenvolvimento do regadio do Alqueva e no crescimento da fileira do azeite.

O que aconteceu nesta região mostra de forma clara o impacto que o investimento certo pode ter. Durante anos, o Alqueva foi alvo de muitas críticas. Questionava-se o custo da obra, a sua utilidade e se o país alguma vez iria recuperar esse investimento. Hoje, a resposta está à vista: o projeto não só transformou a região como já demonstrou que o investimento compensa, por cada euro investido o estado já recuperou 1.2€!

Com acesso garantido à água, os agricultores puderam produzir mais, com maior qualidade e de forma mais consistente. Isso permitiu atrair investimento privado, modernizar explorações e apostar em culturas com maior valor acrescentado. O resultado foi uma mudança profunda: uma região antes marcada por baixa produtividade passou a ser uma das mais dinâmicas do país na agricultura.

O azeite é um dos exemplos mais evidentes. Portugal ganhou escala, qualidade e presença nos mercados internacionais, podendo este ano tornar-se no terceiro maior produtor mundial de azeite. Mas o impacto vai muito além disso. À volta da produção agrícola cresceram outras atividades: transformação, logística, serviços e até turismo, criando um verdadeiro efeito multiplicador na economia.

Este dinamismo teve também um efeito direto no território. Em zonas onde havia falta de oportunidades e perda de população, começaram a surgir empregos, empresas e maior estabilidade. A agricultura, quando tem condições para ser competitiva, consegue fixar pessoas e dar vida às comunidades.

O caso do Alqueva mostra algo importante: investir em infraestruturas, mesmo quando é caro e controverso, pode gerar retorno económico e social significativo. Aquilo que muitos viam como um custo acabou por se revelar um investimento com impacto duradouro.

E este exemplo não tem de ser único. Com acesso a recursos essenciais como a água, enquadramento estável e visão de longo prazo, a agricultura pode continuar a crescer e a afirmar-se como um motor da economia.

Também ao nível das exportações, os resultados são claros. Produtos como o azeite, os frutos vermelhos e os hortícolas têm ganho peso e ajudado a equilibrar a balança comercial. Portugal deixou de olhar para a agricultura apenas como produção para consumo interno e passou a vê-la como um setor competitivo a nível internacional.

Ao mesmo tempo, há hoje uma maior preocupação com a eficiência e a sustentabilidade. O uso de tecnologia, a gestão cuidada da água e a adaptação ao clima fazem parte da realidade de maioria das explorações modernas.

No fundo, o Alqueva mostra que a agricultura portuguesa pode evoluir, criar valor e ter um papel central no desenvolvimento do país. Num território com fortes desigualdades regionais, este tipo de investimento pode fazer a diferença.

O desafio agora não é discutir se valeu a pena, os resultados falam por si, mas garantir que existem condições para replicar este sucesso noutras regiões.

Coordenador do Observatório da Agricultura da SEDES