segunda-feira, 13 abr. 2026

Da guerra no Médio Oriente ao prato do consumidor europeu

Se o conflito no Médio Oriente se prolongar, o impacto mais visível será inevitavelmente sentido pelo consumidor. Energia mais cara significa transporte mais caro, fertilizantes mais caros significam produção agrícola mais cara. A consequência final chega à mesa: alimentos mais caros!

A guerra raramente começa nos campos agrícolas, mas quase sempre acaba por chegar a eles. O atual conflito envolvendo o Irão é mais um exemplo de como a geopolítica tem efeitos diretos na agricultura e na alimentação, mesmo a milhares de quilómetros de distância. Em Portugal e na Europa, o impacto pode não ser imediato na produção, mas é inevitável nos custos, na estabilidade dos mercados e, finalmente, no preço pago pelo consumidor.

O primeiro impacto surge pela energia. A agricultura moderna é profundamente dependente do petróleo e do gás: combustível para máquinas, transporte, eletricidade para rega e, sobretudo, matéria-prima para fertilizantes. Uma escalada militar no Médio Oriente tende a pressionar os preços energéticos e, consequentemente, os custos agrícolas. Esta semana todos sentimos a subida nos combustíveis, mas também nos mercados de energia e nos fertilizantes os aumentos já são reais, fatores de produção críticos para a produção alimentar global.

O segundo impacto surge nos fertilizantes. O Irão é um produtor relevante de ureia e de outros fertilizantes azotados, fundamentais para a produtividade agrícola moderna. Qualquer perturbação na produção ou no transporte destes produtos tem efeitos em cadeia nos custos de produção agrícola em todo o mundo. A realidade é simples: uma parte significativa da produção alimentar global depende de fertilizantes sintéticos. Quando estes escasseiam ou encarecem, os rendimentos agrícolas descem e os preços dos alimentos sobem.

Mas esta crise surge num momento particularmente sensível para a agricultura europeia. Nos últimos anos, o setor tem sido sujeito a uma pressão regulatória crescente, associada às metas ambientais, à transição energética e a alterações profundas na Política Agrícola Comum. Muitas dessas políticas têm intenções legítimas, com que todos concordamos, mas ignoram frequentemente a realidade económica das explorações agrícolas, e do mundo rural. Não é por acaso que os agricultores europeus têm saído à rua em vários países desde 2023.

A Europa arrisca, assim, um paradoxo perigoso: exigir cada vez mais aos seus agricultores enquanto aumenta a dependência alimentar do exterior. No mundo geopoliticamente instável em que vivemos, essa dependência está a transformar-se rapidamente numa enorme vulnerabilidade para todos nós europeus.

Se o conflito no Médio Oriente se prolongar, o impacto mais visível será inevitavelmente sentido pelo consumidor. Energia mais cara significa transporte mais caro, fertilizantes mais caros significam produção agrícola mais cara. A consequência final chega à mesa: alimentos mais caros!

A lição é clara. A agricultura não pode ser tratada apenas como um setor económico ou ambiental. É, acima de tudo, uma questão de segurança estratégica. Sem agricultores viáveis e sem produção alimentar suficiente, a autonomia europeia torna-se uma ilusão.

A história mostra que as nações que deixam de produzir a sua comida acabam por depender da boa vontade dos outros. Num mundo em conflito, essa é uma dependência perigosa que não devemos arriscar!

Coordenador do Observatório da Agricultura da SEDES