Nem todos os invernos nos deixam memórias. Alguns passam quase sem se dar por eles. Outros, como este, obrigam-nos a olhar com mais atenção para a forma como lidamos com a água. Num país de clima mediterrânico, irregular como o nosso, nunca foi realista esperar chuva constante. Mas sim, reconhecer os ciclos climáticos e preparar-nos para eles. É precisamente aqui que a estratégia Água que Une (já aprovada pelo Governo, mas ainda não implementada) ganha importância, não como ideia, mas com obra!
Este outono/inverno tem trazido chuva como já não nos lembrávamos. Não foi um episódio pontual, tem sido um inverno inteiro marcado por chuva persistente e com efeitos visíveis em todo o território nacional, temos cheias em três bacias hidrográficas diferentes, Mondego, Tejo e Sado. Durante anos ouvimos especialistas dizer que estes invernos tinham acabado. Este ano tem mostrado que não é verdade.
Mostrou também outra coisa importante: o que teria acontecido se as barragens não existissem ou não estivessem a fazer o seu trabalho. Sem capacidade para reter a água, controlar os caudais e planear as descargas, certamente os danos teriam sido muito maiores. Apesar desta evidência, continuam a ouvir-se as mesmas vozes de sempre, baseadas em argumentos frágeis, muitas vezes apenas ideológicos a oporem-se a novas barragens, como se fossem elas um grande risco. Este inverno deixa claro que o problema não é haver água a mais ou a menos, mas sim a importância de a guardar e gerir quando ela vem.
Este inicio de ano teve também um lado muito duro. As sucessivas depressões em especial a Kristin, causaram perdas de vidas humanas, enormes danos materiais e muito sofrimento. Houve pessoas que perderam casas, explorações agrícolas, equipamentos e o trabalho de uma vida inteira, infraestruturas importantes com danos que levarão muito tempo a recuperar. Falar de água e de futuro começa por aqui: pela solidariedade com quem ficou sem nada e pelo respeito por quem sofreu. A resposta da população e das entidades públicas, mostrou o melhor do país, com uma ajuda rápida e generosa aos mais afetados. Mas a solidariedade, sendo essencial, não chega. É preciso aprender com o que aconteceu e apostar na prevenção, no planeamento e no ordenamento do território, para que na próxima tempestade não voltemos a passar pelo mesmo.
Durante anos, repetiram-se certezas absolutas, muitos ‘especialistas’ afirmavam que as barragens não iam encher, que investir em armazenamento era um erro, que devíamos aceitar a escassez como destino. A realidade respondeu de forma simples, quando a água chega, só a aproveita quem se preparou para a guardar. A estratégia Água que Une não pode ficar no papel. O Governo tem de avançar rapidamente, porque cada ano perdido é mais um risco acumulado.
Para a agricultura, a diferença não está em promessas, mas em condições concretas. Água armazenada significa menos dependência do acaso, maior capacidade de atravessar verões longos, mais segurança para culturas permanentes e para a pecuária. Significa poder decidir o que semear ou plantar, quando investir e como gerir o risco, em vez de apenas reagir à próxima seca com medidas de contingência.
Este inverno não resolve o nosso problema hídrico, mas confirma o essencial: preparar e armazenar, transformar chuva em segurança. A água que hoje entra nas albufeiras, é garantia do recurso, tempo ganho para decisões melhores, proteção civil, e margem para proteger pessoas, explorações e território. Sem planeamento e execução, esta mesma chuva será só emergência e tragédia!
Quando chove como já não nos lembrávamos, não é um milagre. É uma prova clara e um alerta. E este inverno mostrou que a escassez não é a nossa sina, com a ‘estratégia água que une’ e decisões políticas corajosas e no tempo certo, há futuro para o território, para a nossa agricultura e para o país.
As barragens só não enchem, quando não estão feitas!
Coordenador do Observatório da Agricultura da SEDES