Água: aprender com quem já vive no futuro

A Austrália Ocidental perdeu uma parte significativa da precipitação nas últimas décadas. No entanto, a agricultura continuou a aumentar a produtividade graças ao investimento em investigação, inovação e, acima de tudo, a uma gestão rigorosa dos recursos hídricos.

No passado mês de Junho tive a oportunidade de integrar uma missão técnica à Austrália Ocidental, promovida pela ADRAL e pela EDIA, Invest in Alentejo, para conhecer a forma como uma das regiões mais secas do mundo enfrenta o desafio da escassez de água. Regressei convencido de que Portugal tem muito a aprender, não apenas pelas soluções adotadas, mas sobretudo pela forma pragmática e descomplexada como o tema é encarado.

A Austrália Ocidental perdeu uma parte significativa da precipitação nas últimas décadas. As alterações climáticas deixaram de ser uma previsão para se tornarem uma realidade. No entanto, a agricultura não desapareceu nem perdeu competitividade. Pelo contrário, continuou a aumentar a produtividade graças ao investimento em investigação, inovação e, acima de tudo, a uma gestão rigorosa dos recursos hídricos.

O que mais impressiona é a ausência de preconceitos. Enquanto em Portugal continuamos muitas vezes a discutir a água numa perspetiva ideológica, na Austrália a questão é muito mais simples: qual é a solução que melhor responde ao problema? Não existem tecnologias proibidas nem opções excluídas à partida. Todas são avaliadas do ponto de vista técnico, económico e ambiental e, se fizerem sentido, são implementadas.

A dessalinização é talvez o melhor exemplo. Em Perth, cerca de metade da água consumida pela população já provém do mar e a previsão é que essa percentagem continue a aumentar. O curioso é que um dos argumentos mais utilizados em Portugal contra estas infraestruturas, o impacto da descarga de salmoura na vida marinha, foi desmontado pelos próprios responsáveis australianos com décadas de monitorização científica. Não afirmam que não exista qualquer impacto, mas demonstram que, quando corretamente concebidas e exploradas, estas infraestruturas podem coexistir com os ecossistemas marinhos sem efeitos relevantes.

Igualmente interessante é a aposta na reutilização da água. Em vez de descarregarem toda a água tratada no mar, é utilizada para recarregar artificialmente os aquíferos, criando reservas estratégicas para os períodos de seca. Guardar água quando ela existe para a utilizar quando faz falta parece uma ideia óbvia, mas continua a dar muita discussão em Portugal.

A principal lição desta viagem não foi tecnológica, mas cultural. Os australianos compreenderam que as alterações climáticas obrigam a utilizar todas as ferramentas disponíveis. Não discutem se gostam mais de barragens, dessalinizadoras, reutilização de águas residuais ou recarga de aquíferos. Precisam de todas. E decidem com base na ciência e na evidência, não em posições ideológicas.

Portugal enfrenta hoje desafios semelhantes, não com esta dimensão é certo, mas a tendência é de vivermos esta situação no futuro. Continuar a adiar decisões ou a rejeitar soluções por princípio será um luxo que dificilmente poderemos manter. A segurança hídrica do país dependerá da capacidade de combinar diferentes origens de água, investir em conhecimento e planear a longo prazo. Porque, no final, a água não tem ideologia. Tem de existir!

Coordenador do Observatório da Agricultura da SEDES