Durante anos instalou-se a ideia de que agricultura e ambiente estão em lados opostos, agricultores contra ambientalistas. É uma visão redutora. Quem vive da terra sabe que sem solos férteis, água disponível e equilíbrio ecológico não há produção possível. O agricultor depende da saúde dos sistemas naturais, não por ideologia, mas por racionalidade económica.
A agricultura desempenha funções essenciais além da produção de alimentos: conserva o solo, favorece a infiltração e retenção de água, contribui para a captura de carbono, promove biodiversidade e ajuda a fixar população no território. Estes processos são a base da produtividade. Um solo com matéria orgânica e vida biológica ativa resiste melhor à seca, absorve melhor chuvas intensas e exige menos correções externas. No final, produz mais e com maior estabilidade.
A ‘nova’ agricultura regenerativa, que toda a gente fala, reforça esta lógica. Não significa regresso ao passado, mas aplicar melhor práticas ancestrais. Rotação de culturas, cobertos vegetais, mobilização reduzida do solo e integração entre culturas e pecuária aumentam a fertilidade natural e a resiliência das explorações, combinando conhecimento tradicional com inovação do Séc. XXI.
Também a agricultura de precisão transformou a gestão agrícola. Sensores de humidade, rega gota-a-gota controlada digitalmente, imagens de satélite e drones permitem aplicar água, fertilizantes ou fitofármacos apenas onde são necessários. Equipamentos com taxa variável reduzem desperdícios. O resultado é simples: menos recursos utilizados, menores custos e maior eficiência ambiental.
Produção e sustentabilidade não são incompatíveis, reforçam-se mutuamente. O agricultor moderno gere dados, recursos naturais e risco climático, integrando tecnologia com experiência acumulada.
É tempo de ultrapassar a narrativa de conflito entre agricultores e ambientalistas. Ambos querem proteger o solo, a água e a paisagem, garantindo futuro às próximas gerações. Em vez de confronto, impõe-se diálogo, cooperação técnica e objetivos comuns. Já existem vários exemplos muito positivos em Portugal, mas precisam de escala.
Agricultores e ambientalistas, a trabalhar lado a lado, podem provar que produzir mais não significa degradar, mas sim alimentar, preservar e valorizar o que é de todos. A Terra não é um ativo descartável, é um legado. Quem a trabalha hoje, sabe que a está a preparar para amanhã, para a próxima geração, e isso é, por definição, uma responsabilidade ambiental.
Coordenador do Observatório da Agricultura da SEDES