Neste verão, a Europa está a descobrir uma realidade que Portugal conhece há muito tempo: quando a chuva falta durante meses, os problemas aparecem rapidamente.
Da Alemanha à Polónia, passando pela Hungria, República Checa e algumas regiões de França, os níveis dos rios estão muito abaixo do normal. O Reno, o Danúbio e outros grandes cursos de água condicionam a navegação, dificultam o transporte de mercadorias, afetam a agricultura e reduzem a produção de energia. Países que durante décadas viveram com abundância de água confrontam-se agora com uma realidade para a qual não estavam preparados nem equipados.
Portugal conhece bem este desafio. As secas fazem parte da nossa história e ensinaram-nos que a água tem de ser armazenada quando existe. Foi essa visão que levou à construção de barragens e de infraestruturas que hoje fazem a diferença.
Graças às chuvas do inverno, as barragens portuguesas entraram no verão com níveis muito confortáveis. Isso não significa que o problema esteja resolvido ou que possamos desperdiçar água. Significa apenas que aproveitámos a chuva quando ela caiu.
Há aqui uma lição importante para a Europa.
Durante muitos anos, os países do Sul foram frequentemente criticados por investirem em barragens e projetos de regadio. Em Bruxelas, estes investimentos encontraram inúmeras reservas, oposições, processos morosos e dificuldades de financiamento, como se armazenar água fosse uma opção discutível e não uma necessidade estratégica.
Hoje, muitos dos países que olhavam com desconfiança para estas infraestruturas enfrentam precisamente aquilo que Portugal procurou antecipar: quando a água falta, já não há tempo para construir barragens.
Mas a resposta do Sul não passou apenas pelo armazenamento. Os agricultores portugueses, foram obrigados a aprender a produzir mais com menos água. Hoje utilizam sistemas de rega de elevada precisão, sondas de humidade no solo, estações meteorológicas, imagens de satélite e ferramentas digitais que indicam o momento e a quantidade exata de água a aplicar. Esta evolução permitiu reduzir consumos, aumentar a eficiência e fazer da agricultura mediterrânica uma referência na utilização sustentável da água. Enquanto muitos agricultores do centro e norte da Europa começam agora a enfrentar este desafio, os do Sul acumulam décadas de experiência e inovação na gestão deste recurso.
As alterações climáticas vieram mudar as regras. Haverá menos previsibilidade, períodos de seca mais prolongados e episódios de chuva intensa concentrados em poucos dias. Se essa água não for armazenada, perde-se rapidamente e fará falta poucos meses depois.
Naturalmente, as barragens não resolvem tudo. É igualmente essencial reduzir perdas nas redes, reutilizar água, investir na eficiência da rega e proteger os recursos hídricos. Mas ignorar o papel do armazenamento seria fechar os olhos à realidade.
Portugal está em vantagem porque há décadas que planeia. A Europa faria bem em retirar as devidas conclusões. Adaptar-se às alterações climáticas exige investir em reservas de água, apoiar projetos de armazenamento onde eles fazem sentido e valorizar a experiência dos países que, por necessidade, aprenderam há muito a gerir um recurso que hoje se tornou estratégico para todo o continente.
A grande lição deste verão é simples: a água não se improvisa. Planeia-se, armazena-se e gere-se. Quando ela falta, já é demasiado tarde para construir as soluções.
Coordenador do Observatório da Agricultura da SEDES