segunda-feira, 13 abr. 2026

Viajar para sentir ou para acumular

A diferença entre criar memórias ou simplesmente picar o ponto.

Recordo-me, numa viagem de amigos, há uns anos, sentir a sofreguidão com que queriam ir a todo o lado ao mesmo tempo. De aproveitar aqueles poucos dias para picar todos os pontos de suposto interesse ou de relevância turística, como se aquele passeio fosse guiado por uma checklist em que pouco ou nada interessava estar mas sim dizer-se que se foi. A ideia deles, que chocou na altura com a minha, era a de acumular o máximo possível, sem que desse tempo para usufruirmos verdadeiramente dos espaços que visitávamos, numa corrida exasperante. Levavam no bolso do casaco uma lista de atrações e queriam à força percorrê-las todas, ao que eu fui acedendo para não entrar em conflito com ninguém. Saíamos do hotel e chegávamos a um sítio, passados 5 ou 10 minutos, arrancavam para outro e depois outro... Quando eu parava um bocadinho para absorver as energias de cada momento, era automaticamente abanado por uma pressa constante em picar o ponto, sem oportunidade para olhar à volta, viver o tempo certo ou experimentar os locais de uma forma calma e tranquila.

Nessa altura, no regresso a casa, pensei bastante sobre o assunto. A urgência de acumular provas de passagem, cidades visitadas em sequência rápida, fotografias repetidas e momentos que não marcam, que se tornam apenas alimento para mostrar. Horários tão preenchidos que por vezes já não sobra tempo para aquilo que realmente me justifica sair de casa, a sensação de que cheguei a algum lado. Esse é no fundo o resultado da democratização dos voos, aeroportos desconfortáveis, multiplicação de destinos. Nesses três dias fiquei com a sensação de ter cumprido uma obrigação logística mais do que ter vivido uma experiência, sem que tivesse chegado a algum lado verdadeiramente. O mundo das viagens tornou-se assim para muitos, uma mudança de natureza, o importante é escolher o hotel certo, o restaurante onde todos vão e que é difícil de reservar. Parece que parar para relaxar, beber um café sem horas ou ficar um pouco mais na cama a relaxar é perder a oportunidade, é falhar no propósito ou desperdiçar dinheiro. Por isso há quem chegue, tantas vezes, mais cansado do que foi e a precisar de férias das próprias férias. O excesso de programação, esquecendo-se a liberdade, a capacidade de escolha, até uma certa ideia de felicidade que fica suspensa para depois.

Essa ansiedade em aproveitar tudo, como se o tudo fosse uma aceleração inevitável, traz a vidas já de si complexas e corridas, uma pressão evitável, sobretudo quando a ideia de férias deveria ser a antítese disso mesmo. Talvez por isso quem antigamente viajava tanto, quando tão poucos viajavam, tenha tendência para viajar menos, fugindo dessa loucura coreografada e do excesso de maquilhagem que reduz a profundidade e a magia dos destinos. Talvez por isso também se comecem a procurar cidades menos evidentes, destinos improváveis, lugares que permitam alguma relação com o ritmo local em vez da simples excursão organizada. Bairros menos interessantes para o Instagram, menos disciplina e e percursos desenhados ao minuto, menos receio de se perder alguma coisa, de demonstrar que se foi. Ruas repetidas, regressar ao mesmo café que nos deu a sensação de prazer e aceitar que nem tudo precisa de ser descoberto no primeiro olhar.

Acredito por isso, que num futuro próximo as pessoas comecem a entender o prazer das viagens menos exibidas e mais sentidas. Menos necessidade de se provar que se esteve e mais vontade de se escolher o destino pelas razões certas e de se perceber porque se escolheu ir. Porque no fundo continuam a haver duas formas distintas de ir. Há quem viaje para acrescentar nomes a uma geografia pessoal e quem viaje para deixar que um lugar altere a forma como se regressa. E quase sempre é essa segunda viagem que fica.

A descobrir:

Esta semana regressei a Madrid, não fui aos restaurantes da moda, mas sim a sítios confortáveis onde se come bem, sempre por sugestão de amigos espanhóis e na companhia deles. No bairro Salamanca, quase colados um ao outro, o “El Paraguas”, na calle Jorge Juan, é um regresso ao antigamente com pratos sofisticados, mas cheios de intenção e um labirinto de salas onde apetece ficar. Ao lado a taberna “Los Gallos”, com um terraço muito agradável e uma tortilha a fazer lembrar as melhores que como habitualmente em Sevilha. Um pouco mais afastado do centro, em Torrelodones, o “El Pesca”, onde se pode provar uma refeição com tranquilidade e umas maravilhosas “zamburiñas”. 

Uma musica para dançar no fim de semana:

Beatiful Escape – Tom Misch, Zak Abel