quarta-feira, 13 mai. 2026

Túmulos cheios de vida e um outro quase vazio

É fácil relacionarmo-nos com os etruscos, e não só por causa do famoso sorriso das suas estátuas.

Volta e meia dão-me uns desejos sem razão aparente, um pouco como dizem que acontece com as grávidas. Existe, todavia, uma diferença significativa: em vez de me apetecer morangos ou nabos crus (já não recordo quem me contou essa, de que a meio da noite sentiu uma vontade imperiosa de comer nabos crus), apetece-me ler este ou aquele livro, de que só vagamente ouvi falar e cujo sabor desconheço por completo. Naturalmente, já tive algumas decepções.

Disse «sem razão aparente» mas talvez não seja exatamente verdade. Neste caso, pelo menos, sei que o desejo resultou da agradável leitura de algumas páginas de um romance de uma autora italiana acabado de publicar em Portugal. Tenho quase a certeza de que foi a sua evocação de um jardim em torno de um palacete em mau estado que me trouxe ao pensamento O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. De repente, era urgente que eu o lesse.

Sucede que esse livro se encontra esgotado em Portugal e nos circuitos habituais não encontrei qualquer exemplar. Até que me apareceu uma edição de bolso francesa de 1987, com os cantos razoavelmente amassados, o papel amarelado pelo tempo e um preço ridículo.

Mal me chegou às mãos, foi com um encanto crescente, quase com assombro, que li as oito páginas do Prólogo. Dão conta de um passeio do autor (ou narrador), na companhia de uma família de amigos, pelos arredores de Roma num domingo de abril de 1957. Note-se a delicadeza desta descrição: «Ali, a erva é mais verde, mais espessa, mais escura do que a da planície situada entre a [Via] Aurélia e o [Mar] Tirreno: sinal de que o eterno sirocco, que sopra do lado do mar, perdeu, pelo caminho, uma grande parte da salinidade quando chega lá acima e que a humidade das montanhas próximas começou a exercer a sua influência benéfica».

Pelas janelas veem os pequenos montes de sepulturas etruscas semeadas à beira da estrada. Seguem no carro, além do narrador, o casal de amigos e a filha destes, Giannina, de nove anos, a quem tentam explicar quem eram os etruscos. Ao que ela se sai com esta pergunta desconcertante:

« – Papá, porque é que os túmulos antigos te deixam menos triste do que os túmulos recentes?»

E complementa: «Fazes-me pensar que também eles viveram, e eu também gosto deles, como de todos os outros».

Talvez seja oportuno referir que é especialmente fácil relacionarmo-nos com os etruscos, não apenas por causa do famoso sorriso das suas estátuas (que deu título a um livro de José Luis Sampedro), mas sobretudo pela profusão de utensílios do quotidiano que pintavam nos seus túmulos. Lidas a essa luz, as palavras da criança ganham outro significado.

«A visita à necrópole desenrolou-se de seguida, segundo recordo, sob o signo da extraordinária ternura desta frase. Foi Giannina quem nos pôs em estado de receptividade. Era ela, a mais pequena, que, num certo sentido, nos levava pela mão».

No regresso a Roma, trajeto de uns 40 quilómetros, o narrador põe-se a pensar na sua juventude em Ferrara, e no túmulo monumental, mas «hediondo», dos Finzi-Contini. Ao contrário dos túmulos etruscos, ‘cheios de vida’ – passe o paradoxo ­–, aquele encontra-se praticamente vazio. Ao longo do livro perceberemos porquê.