terça-feira, 18 ago. 2026

Quando a realidade espera pelos The Strokes

Há bandas que fazem música e há bandas que acabam por definir uma época. Os The Strokes pertencem claramente à segunda categoria.

Se os Daft Punk serão para muitos, onde me incluo, a grande referência da música eletrónica da nossa geração, a escolha do vocalista Julian Casablancas para uma das suas faixas de maior sucesso, diz quase tudo sobre o sucesso dos The Strokes. Há bandas que fazem música e há bandas que acabam por definir uma época. Os The Strokes pertencem claramente à segunda categoria. Quando Is This It apareceu, em 2001, Nova Iorque parecia ter encontrado novamente a sua banda sonora. Mais de duas décadas depois, os The Strokes estão de volta com Reality Awaits. O título parece quase uma provocação. Como se, depois de tantos anos a fugir da realidade através do rock, da noite, da velocidade e de uma certa indiferença cuidadosamente ensaiada, fosse finalmente tempo de olhar para ela de frente.

O novo álbum chega seis anos depois de The New Abnormal, o disco que lhes valeu o primeiro Grammy e que mostrou uma banda capaz de envelhecer sem se transformar numa caricatura de si própria. Agora, com Rick Rubin novamente associado à produção, os The Strokes parecem menos interessados em repetir o passado do que em conversar com ele. Há guitarras que ainda reconhecemos, melodias que trazem ecos daquela Nova Iorque noturna do início do século e uma certa melancolia urbana que continua a ser uma das suas maiores assinaturas. Mas também há eletrónica, experiências vocais, Auto-Tune e uma vontade evidente de desconstruir a imagem que o público construiu deles.

É precisamente aí que reside o imaginário dos The Strokes. Na capacidade de fazerem parecer simples aquilo que raramente é. O rapaz que atravessa a cidade sem destino. A noite que parece interminável. O amor que chega sempre atrasado. A solidão no meio de uma multidão. Os amigos que envelhecem e as cidades que mudam. Casablancas sempre escreveu como quem observa o mundo através de uma janela embaciada, vemos as formas, percebemos as emoções, mas raramente temos todas as respostas. Talvez por isso a banda tenha conseguido sobreviver ao seu próprio mito. Depois de Is This It, vieram Room on Fire, First Impressions of Earth, Angles, Comedown Machine e, já numa outra fase da vida, The New Abnormal. Entre discos mais consensuais e outros mais discutidos, os The Strokes foram deixando de ser apenas os que supostamente salvaram o rock para se tornarem aquilo que todas as grandes bandas desejam ser, um universo próprio. Um lugar para onde se pode regressar, mesmo quando já não somos exatamente a mesma pessoa que éramos na primeira audição.

Reality Awaits chega, por isso, num momento particularmente interessante. Porque 2026 parece estar a transformar-se num ano de reencontros musicais. O rock de referência volta a ocupar espaço, não necessariamente porque o passado seja melhor, mas porque há artistas que perceberam que a nostalgia só funciona quando vem acompanhada de alguma novidade. Porque a música, tal como a vida, não se alimenta apenas de memórias.

Os The Strokes sabem-no bem. Podiam ter ficado eternamente presos à fotografia de cinco rapazes nova-iorquinos, guitarras ao ombro, a caminho de um clube qualquer. Preferiram continuar a andar. E talvez seja essa a verdadeira mensagem de Reality Awaits, a realidade espera por todos nós. Mas, enquanto esperamos por ela, ainda podemos escolher a banda sonora. Mais um grande álbum de um dos meus grupos preferidos.

A descobrir:

Situado numa das praias mais procuradas do Algarve, para quem gosta de “postais” e daquela fotografia perfeita, o Benagil Beach Club tem uma piscina exterior e uma vista panorâmica, ideais para quem gosta de relaxar e de escapar às multidões. Pratos leves e vários ceviches acompanhados por uma sangria que vale a pena descobrir. Na Praia de Benagil, no Carvoeiro.

Música para dançar no fim de semana: