quarta-feira, 13 mai. 2026

Os Santos Populares aí à porta

O desafio das festas de Lisboa: mais condições para quem as visita sem perder autenticidade

Nascem os primeiros raios de sol, na verdadeira aceção da palavra e o país fica logo diferente. São as pessoas que deixam o seu ar mais taciturno e macambúzio como se a vitamina D lhes fizesse um click na disposição e lhes devolvesse a felicidade. Esta é a altura em que nos lembramos novamente da praia (e das saudades que temos dela), mas também é tempo dos últimos preparativos para as festas dos Santos Populares. Aquele momento tão nosso em que as ruas se estreitam, as luzes penduram-se em cada bairro e o cheiro a febras, sardinha assada e manjerico invade a zona histórica da capital.

Lisboa nessas noites, não se explica, sente-se. Alfama transforma-se num labirinto de afetos, a Graça respira música em cada esquina e a Bica dança como se o mundo fosse acabar amanhã. É bonito, é nosso mas já não é suficiente. E quando digo que já não é suficiente não o digo numa vertente mercantilista em que tudo é desculpa para carregar ainda mais de turismo como se não soubéssemos rentabilizar o que temos de nenhuma outra forma. Falo do excesso e do que falta. A desorganização que começa a deixar de ser pitoresca para se tornar previsível. E aquilo que era espontâneo arrisca-se a tornar-se apenas caótico.

A experiência dos Santos Populares precisa, urgentemente, de um novo equilíbrio. Não para perder autenticidade, essa não se decreta, mas para a proteger. Começa pela mobilidade e já disso aqui dei conta o ano passado. Lisboa não pode continuar refém de si própria. Reforçar transportes públicos durante toda a noite, criar corredores pedonais bem definidos e garantir acessos seguros não é um luxo, é o mínimo para que a festa não se transforme numa prova de resistência. E sei bem do que falo. Há dois ou três anos um amigo que foi jantar comigo a uma festa no “Tejolense” voltou para casa, na Praça de Espanha, a pé porque não conseguiu transporte nenhum que o pudesse levar a casa. E isso é inconcebível.

Depois, a limpeza. A cidade merece acordar com dignidade depois de noites intensas. Apostar em equipas de intervenção rápida, mais pontos de reciclagem e campanhas eficazes de sensibilização pode fazer a diferença entre o orgulho e o constrangimento. Não podemos, por falta de condições, ter pessoas a fazer as suas necessidades na rua nem me parece aceitável acordar-se nas zonas com maior afluência, envoltos num cheiro que mistura urina e vomitado.

Por fim, a experiência. Os Santos não são apenas sardinhas e manjericos. São identidade. São história. Porque não elevar o evento com programação cultural mais diversificada? Pequenos palcos espalhados pela cidade, espaços dedicados à história dos bairros, experiências gastronómicas que vão além do óbvio. Lisboa pode e deve surpreender também aqui. A dinâmica do improviso, do genuíno e do que nasce da vontade sem grandes planeamentos não se pode confundir com amadorismo ou falta de estratégia para um evento que deveria ser um dos grandes cartões de visita da cidade, mas acima de tudo um ponto de confluência de quem por cá leva a sua vida, entre várias gerações e de todos os estratos sociais. Uma forma de festejar e de fruir o que é nosso e que empunhamos com orgulho.

Muitos, como eu, gostam da ideia de celebrar esta época tão especial mas pensam duas vezes sempre que se lembram das dificuldades para regressar a casa ou para ir a uma simples casa de banho. Transformar o evento dando-lhe condições sem lhe retirar a autenticidade seria um “game changer” que seguramente contribuiria para o continuar do seu sucesso.

A descobrir:

Não é novo, nem está no roteiro dos “trendy’s” mas carrega história, bairrismo e portugalidade por tudo o que é poro do seu “corpo”. Falo d´”O Tasco” ou “Não venhas tarde”, como é conhecido. Na Rua do Beato, número 6, o Artur, antigo guarda-redes do histórico COL (Clube Oriental de Lisboa), figura pitoresca e muito engraçada mantém o seu farto bigode e os pratos nacionais como a dobrada, o cozido, as iscas com elas ou as favas. Já por lá ouvi cantar o fado e anedotas num clima de boa disposição sem filtros. Assim como eu gosto.

 

Música para dançar no fim de semana:

Morning Coffee (Extended Mix) – Jitwan, GUDFELLA